Ayuthaia
O vácuo de poder deixado pelo eclipse da civilização khmer, que florescera e atingira o apogeu nos século XII a XIV irradiando a partir de Angkor; o lento declínio dos reinos vietnamitas (Dai Viet e Champa) e a permanente conflitualidade intra-birmanesa, possibilitou aos thai a consolidação de uma forte consciência identitária que, a prazo, favoreceria a emergência de uma vasta unidade territorial sediada em Ayuthaia. SUKHOTHAI deixara de ser capital e fora relegada a cidade de província do novo centro do poder. Situada no centro das vastas e ricas planícies fluviais do Chao Phraya – a que erradamente os ocidentais chamaram de “Menam”, que em língua thai significa rio – a capital do Sião, Ayuthaia (a Odiá das crónicas portuguesas) era, em inícios do século XVI, uma das maiores cidades do mundo. Da riqueza do reino, fortalecida pela unidade étnica, linguística e religiosa, resultaram aquela confiança, auto-estima e fortaleza que caracterizam os siameses e ainda fazem dessa sociedade uma das mais sólidas e perduráveis comunidades políticas existentes no planeta.
Afonso de Albuquerque tomou de assalto Malaca em 1510, abrindo as portas da Insulíndia, Sudeste Asiático e Extremo Oriente à acção comercial e religiosa dos portugueses. Procurando inteirar-se da realidade geopolítica da região, estabelecer relações e firmar posições recém-adquiridas, foi-lhe comunicado que o reino do Sião ( Sian, Syam, Anseão conforme os autores coevos) seria o melhor parceiro para eventual cooperação na luta contra os muçulmanos, combate que se pressentia dura pelo domínio das rotas comerciais. Em 1511, com instruções de Albuquerque, Duarte Fernandes partiu para o Sião para aí assentar as condições para o estabelecimento de relações entre o rei de Portugal e o monarca siamês Ramatibodi II. Os contactos foram, ao que parece, muito auspiciosos, pelo que em 1518 se procedeu, com solenidade, à primeira embaixada da coroa portuguesa aos domínios do rei do Sião.
Quando Fernão Mendes Pinto por aí passou em finais da década de 1550, rendeu-se à magnificência, esplendor e operosidade daquela gente tolerante, farta e “idólatra”. Tão impressionantes eram as demonstrações de força do Sião, que os portugueses procuraram ao longo dos séculos XVI e XVII mantê-lo como interlocutor preferencial na região, se bem que, pontualmente, realizassem fracassadas tentativas de jogar no tabuleiro dos birmaneses, que sofriam de endémicos ciclos de ascensão e fragmentação.
Ayuthaia chegou a ser atacada e dominada pelos birmaneses em 1569, mas em finais do século, sob a direcção de um aguerrido general thai – mais tarde rei Naresuan – o reino libertou-se do jugo invasor e era, de novo, o mais disciplinado, centralizado e eficaz Estado do sudeste-asiático, dotado de rígida administração colectora de impostos e de um temível exército, famoso pelo engenho com que manobrava imensas manadas de elefantes aparelhados para a guerra.
Uma numerosa comunidade de portugueses vivia por essa altura na capital. Alguns serviam no palácio ou ocupavam postos de grande relevo no exército; muitos outros, eram arcabuzeiros que desempenhavam missões decisivas nas batalhas fronteiriças que mantinham os inimigos à distância. Havia ainda sacerdotes que mantinham a missão de S. Paulo, no coração de Ayuthaia, servindo a comunidade luso-siamesa que iam engrossando graças à proverbial tendência dos portugueses em assentar vida em paragens longínquas.
Desejosos de cair nas boas graças dos soberanos siameses, ingleses, franceses, holandeses e portugueses entreteceram ao longo de século e meio todas as artes da diplomacia, da intriga e jogos de sedução visando obter o exclusivo do trato com o Sião, mas todas as tentativas esbarraram com a obstinada intransigência thai em negociar para além das mercadorias. O clímax do assédio das potências mercantilistas europeias deu-se em finais do século XVII, em resultado da competição anglo-francesa. Luís XIV procurou, com alguma imperícia, instalar no Sião um corpo expedicionário que tornasse possível a actividade missionária. O rei Narai tinha por valido um grego de nome Constantine Phaukon (Falcon, ou Falcão?), casado com a luso-nipónica Maria de Guiomar. O “grego” – que falava um português correcto! – parece ter induzido o soberano a aceitar a peregrina ideia da ingerência francesa. A aventura terminou, como seria de esperar, em desastre. O “grego” foi morto e o rei falecia misteriosamente alguns meses depois, presumivelmente envenenado.
Da revolução siamesa de 1688 resultou o banimento do cristianismo e o correspondente reforço da religião budista theravada, que passou a religião do Estado. O país foi dominado pela quadrícula dos mosteiros que passaram ,desde então, e quase até aos dias de hoje, a exercer um poder de natureza não apenas espiritual e moral, mas também político e educativo de relevo. Com o Estado fragilizado, irromperam no sul islâmico reivindicações autonomistas e a pressão birmanesa a oeste acentuou-se. Em 1767, uma inesperada invasão birmanesa derrotou os exércitos siameses e tomou de assalto Ayuthaia, posta a saque e incendiada. Nos derradeiros combates corpo-a-corpo evidenciaram-se os portugueses e respectivas famílias.
O país parecia condenado à desaparição, mas como sucedera em finais de Quinhentos, uma feroz resistência contra o ocupante ganhou corpo sob a direcção do enérgico e carismático general sino-siamês Taksin. Auto-proclamado rei, estabeleceu capital em Thonburi, situada perto da actual Banguecoque. Taksin viria a ser vítima de um complot e morreu tragicamente depois de abandonado e traído pelos seus homens de confiança. O seu lugar foi ocupado pelo general Chakri, fundador da actual dinastia reinante, que ascenderia ao trono como Rama I (r. 1782-1809).
(Textos por Miguel Castelo Branco)
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