Ligações
Homepage
Quem Somos Menú Agenda Cultural Portugal e o Sião Contactos e Reservas

Banguecoque

Rama I estabeleceu nova capital em Banguecoque – Krung Thep, em tailandês – e procurou reatar contactos com as potências europeias presentes na região. Após longa troca de correspondência com as autoridades de Macau, e com a anuência de D. João VI, Carlos Manuel da Silveira chegou à capital siamesa em Março de 1819, recebendo de Rama I o pedido para o estabelecimento de uma feitoria portuguesa. A auspiciosa renovação do trato com o Sião viria, porém, a ser seriamente comprometida pelos acidentes da vida portuguesa, que então entrava na longa combustão dos enfrentamentos entre liberais e legitimistas que paralisariam a vida nacional ao longo de duas décadas.

Com Macau estagnada ou em franco declínio após a fixação dos ingleses em Hong Kong, o comércio com o Sião passou a ser dominado por armadores chineses, ingleses, norte-americanos e holandeses, aos quais se acrescentaram, ao longo do século XIX, dinamarqueses, alemães, austríacos e belgas. Menos exuberante era a presença portuguesa. Os nossos cônsules procuraram incentivar as trocas comerciais, mas os resultados, desalentadores, confinavam-nos à inglória tarefa de manter os cada vez mais ténues laços com os luso-siameses e emitir passaportes portugueses a chineses como medida para angariar receitas para a sobrevivência própria. O nome de Portugal inspirava, ainda, respeito, mas ia-se apagando ante a chegada de homens de negócios e empresas europeias. O Sião era, para os portugueses de meados de Oitocentos, apenas uma vaga e longínqua lembrança exótica alimentada por relatos extraídos de revistas britânicas ou pela fama mundial dos “irmãos siameses”, atracção circense nos palcos da Europa Ocidental e dos EUA.

Por essa altura reinava no Sião Mongkut (Rama IV, r.1851-1868), astrónomo e matemático autodidacta e homem de febril curiosidade pela ciência e línguas europeias, incluindo o latim, que escrevia e falava com uma rara inteligência. Foi celebrizado, entre os europeus, pelas memórias – exageradas e pouco escrupulosas – de Anna Leonowens, que inspirariam a Rodgers e Hammerstein, já na década de 50 do século XX, um belíssimo musical (The King and I) em que Deborah Kerr contracenava com Yul Brynner.

Isidoro Francisco Guimarães obtivera do Sião, em 1859, um Tratado de Amizade,Comércio e Navegação , mas nem o génio diplomático de um dos seus sucessores no governo-geral de Macau – o visconde de S. Januário – conseguiu ultrapassar o impasse de contactos sem contrapartidas. Os siameses davam-se conta dos enormes perigos que rondavam a sua independência. Os belicosos birmaneses haviam sido reduzidos a colónia britânica, os sultanatos malaios aceitavam a “protecção” da Union Jack e, a este e norte, Napoleão III investia no Mekong invocando a protecção das missões católicas.

O país teve a ventura de ver ascender ao trono, em 1868, um monarca que se revelaria um dos maiores estadistas asiáticos do século XIX. Educado à europeia, falando um inglês literário, homem de inteligência superior e fino tacto diplomático, Chulalongkorn (Rama V) furtaria o seu povo às arremetidas do colonialismo promovendo uma imagem “ocidental” do Sião mercê da abolição da escravatura e da servidão, edificando uma administração moderna, obras públicas de vulto, apetrechamento do exército à europeia e lançando as bases para a criação de um sistema de ensino que nas décadas seguintes permitiu ao Sião dotar-se de quadros técnicos de nível superior. Enviou para a Europa centenas de filhos da nobreza local e contratou um contingente de conselheiros ocidentais que o ajudaram na árdua tarefa de mudar a face de um país agrícola e feudal numa monarquia reconhecida como igual pelas potências mundiais. O seu reinado foi tão impressivo e decisivo que, ainda hoje, a sua efígie se impõe,como objecto de reverência, em todos os lares tailandeses. Rama V não conquistou apenas o respeito dos seus súbditos. A sua luta contra a servidão conquistou para a causa da preservação da independência do Sião um assinalável número de inteligências europeias. Não é pois de estranhar que, quando em 1893, emulando os britânicos – useiros da “política de canhoneira” – os franceses impuseram ao Sião um Ultimato exigindo a cedência de vastos territórios, hoje pertencentes ao Camboja, muitos fossem os que tomassem partido pelos direitos siameses.

Rama V decidiu-se, por fim, iniciar um longo périplo pela Europa, marcando com a sua presença – e explorando as rivalidades entre europeus – a soberania siamesa. A viagem que encetou em 1897 levou-o à Rússia, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Áustria-Hungria, Holanda, Itália, França, Grã-Bretanha, Espanha e Portugal. Chegou a Lisboa em Outubro desse ano, acontecimento marcado por faustosos actos oficiais. A obra que deixou garantiu a sobrevivência do Sião e o surgimento de uma consciência nacional solidamente ancorada na tradição monárquica e budista, dois esteios da unidade do país. Não deixa de ser importante o facto deste “nacionalismo” – inicialmente étnico e circunscrito aos thai – se haver imposto lentamente à diversidade do Sião e ter conseguido anular, incorporando-as, as restantes minorias: chineses, malaios muçulmanos,aborígenes e “tribos da montanha”, estes vivendo ao longo das fronteiras que separam o país do Laos e da Birmânia.

Os sucessores de Chulalongkorn – Rama VI e Rama VII – viram-se em condições menos seguras enquanto monarcas absolutos ante uma sociedade em que a consciência dos direitos individuais e de representação tornavam impossível a manutenção de um Estado patrimonial. O Sião continuava a encantar os forasteiros, mas recebia aplausos pelo esforço com que investia na dotação tecnológica necessária ao desenvolvimento. Sarmento Beires ficou impressionado com a aviação siamesa e Humberto da Cruz pela qualidade das infraestruturas de Banguecoque. O país dera passos decisivos na via do Ocidente, preservando a independência, mas não escapou a graves convulsões internas. Em 1932, o rei Rama VI (Prajadhipok) foi forçado a aceitar uma Constituição e o governo parlamentar, e em 1935, insatisfeito com o agudizar dos conflitos sociais e políticos, abdicou e partiu para o exílio. O novo rei, o jovem Ananda Mahidol (Rama VIII), vivia na Suíça, pelo que as rédeas do poder foram confiscadas nos anos subsequentes por Phibul Songkhram, cuja governação, claramente fascista - marcada pela nacionalização das minorias étnicas e linguísticas, - aproximou o país da esfera japonesa.

Em 1940, um grave conflito fronteiriço com a vizinha Indochina Francesa, empurrou definitivamente o Sião (agora designado Tailândia, “Terra dos Homens Livres”) para os braços do Japão. Declarando guerra aos EUA e Grã-Bretanha – que não aceitaram a declaração por considerarem o governo de Phibul não representativo da vontade do povo siamês - participou na Segunda Guerra Mundial mas sem qualquer protagonismo militar. Em 1946, o soberano regressou finalmente ao seu país. Volvidos alguns meses, foi encontrado morto no seus aposentos, vítima de acidente ou complot que nunca foi devidamente esclarecido. O seu irmão, o príncipe Bhumibol Adulyadej (n. 1927), ascendeu então ao trono como Rama IX. Tendo visitado Portugal em 1960, Rama IX é o mais antigo chefe de Estado em funções e uma figura de reconhecido mérito, não apenas pelas qualidades humanas que evidencia – fotógrafo premiado internacionalmente, compositor e instrumentista virtuoso de música jazz, chegou a gravar com Benny Goodman ! - , como pela rara habilidade com que colocou a Tailândia na posição de maior aliado das posições ocidentais no sudeste-asiático ao longo das difíceis décadas da Guerra Fria e, depois, como garante de um regime constitucional e representativo estável, o único da região poupado à guerra e ao comunismo. Em 2006, Bhumibol celebrou os sessenta anos de reinado, entre o reconhecimento do seu povo - que se mobilizou em impressionantes ajuntamentos de massas, os maiores de que há memória na história do país.

(Textos por Miguel Castelo Branco)

< VOLTAR |

Imprensa Ligações