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A mais velha aliança ente um povo europeu e uma nação asiática

A mais antigas relações diplomáticas existentes entre uma nação europeia e um Estado asiático unem, desde há cinco séculos, dois povos distintos do ponto de vista étnico, linguístico, mental, cultural, institucional e religioso. Portugal, o mais antigo Estado independente da Europa, e a Tailândia, herdeira de oitocentos anos de orgulhosas tradições de independência, são os protagonistas deste feito único nos anais das relações internacionais.

Num mundo infelizmente marcado pela guerra e pela insegurança, pelos interesses ditados pelo egoísmo mais estreito, pela duplicidade e por fanatismos de toda a ordem, a persistência desta estranha relação multissecular entre dois povos tão diferentes parece constituir uma notável excepção. Portugueses e tailandeses têm conseguido manter, desde o momento do primeiro encontro, em 1511, até à actualidade, uma recíproca amizade e disponibilidade para superar barreiras geográficas e civilizacionais aparentemente inultrapassáveis.

A sobrevivência desta antiquíssima cooperação é tanto mais intrigante quando se verifica que ambos os povos, separados por continentes e por oceanos, seguiram trajectos distintos, conheceram triunfos e revezes trágicos e alinharam em ordens regionais que os predisporiam a faze-los esquecer as coincidências momentâneas que favoreceram a aliança selada em 1511, quando Portugal, então uma grande potência marítima e comercial, chegou ao Sudeste Asiático após se haver apossado da cidade de Malaca, na actual Malásia.

País pequeno - rectângulo de pouco mais de 89.000 quilómetros quadrados, povoado por pouco mais de um milhão e meio de habitantes no século 15 - mobilizou todos os seus parcos recursos para uma empresa e uma aventura que ainda fazem o espanto dos historiadores. A aventura das caravelas e naus iniciou-se em 1415, com a conquista da cidade de Ceuta, em Marrocos. Depois, e sucessivamente, chegaram os portugueses aos arquipélagos da Madeira e Açores, avançaram pela costa a África ocidental, vencendo o desconhecido, desenhando mapas e moldando o mundo, criando entrepostos comerciais, estabelecendo contactos com povos até aí ignorados dos europeus. Homens duros na guerra, hábeis marinheiros detentores da ciência náutica mais avançada daquela época, comerciantes com grande capacidade de apreenderem a sensibilidade dos povos que iam conhecendo, os Portugueses conseguiram, finalmente, em 1499, atingir a Índia, grande produtora de especiarias que até aí chegavam à Europa graças ao sistema de trocas comerciais em que se haviam especializado os italianos.

Ao apossarem-se do monopólio das especiarias do Oriente, acumularam imensa fortuna que lhes garantiu um poder militar, naval e político que só seria posto em causa, décadas mais tarde, pela concorrência de outras nações europeias: a Inglaterra, a Holanda e a França. As caravelas com a bandeira da Cruz de Cristo - Portugal aliava a sua expansão marítima à difusão do cristianismo – passaram a dominar o Atlântico, o Índico e o Pacífico ocidental. Em meados do século XVI, Portugal possuía um vasto império que cobria toda a costa ocidental africana, os arquipélagos de Cabo-Verde e S.Tomé e Príncipe, o Brasil, baluartes na costa oriental africana, ricos entrepostos na Índia, bases navais no golfo pérsico, Ceilão, a península malaia, importantes pontos-chave da Insulíndia (actual Indonésia), Timor e a cidade de Macau, porta de entrada e saída de produtos da China, detendo ainda acesso aos portos Japão.

Este imenso império era mantido, a custo, graças à habilidade de comerciantes, aventureiros, soldados e missionários. Num tempo em que a viagem de ida e volta, da Europa aos confins do mundo, durava três anos e em que as comunicações eram precárias, os portugueses, entregues aos perigos dos mares, à fome e à sede, aos assaltos de povos hostis e de climas inclementes, tiveram de recorrer a todos os meios para garantir a viabilidade de tal império. Apostavam, para tal, na superioridade científica da sua arte de navegação e na tecnologia militar, na velocidade das suas embarcações, mas igualmente na rara capacidade de fazer amigos entre povos distantes, tentando convertê-los ao cristianismo e favorecendo o casamento dos seus soldados com mulheres de outras raças e civilizações.

Tendo como grandes inimigos os muçulmanos, tentavam estabelecer boas relações com outras religiões por forma a ganhar aliados na luta sem tréguas que mantinham com os seguidores de Maomé.

Foi em 1511, depois de conquistar a rica cidade de Malaca, que o comandante português Afonso de Albuquerque decidiu enviar uma embaixada ao Sião, um forte Estado budista. O Sião era, com efeito, um interlocutor importante pois detinha uma posição geográfica de grande relevo nas relações comerciais entre o Índico e o Pacífico, dominava parte importante da península malaia e era a única grande unidade territorial não-muçulmana do sudeste-asiático com relevância militar e estabilidade interna, posto que nem a Birmânia, o Camboja ou Champá (actual Vietname) reuniam tais requisitos.

A aliança então selada, e sucessivamente ratificada ao longo dos séculos 16 e 17, garantiu aos portugueses um interlocutor de primeira grandeza na região e aos siameses o acesso a tecnologia militar de que precisavam para manter a defesa do seu vasto território sobre as disputadas fronteiras ocidental (Birmânia) e oriental (Camboja).

Em Ayuthia viviam centenas de portugueses, que aí desenvolviam actividade comercial, mas também muitos outros que, servindo directamente nos exércitos do rei do Sião como artilheiros e arcabuzeiros, depressa se casaram com raparigas locais e passaram, eles também, a integrar essa curiosa comunidade de mestiços com nomes cristãos que ao longo dos séculos seguintes constituiria um importante grupo na sociedade siamesa. Ao contrário do que aconteceu noutras regiões, os portugueses não foram excessivos na tentativa de converter os siameses ao cristianismo. A natureza amável dos siameses, herdada do seu sistema de crenças, a enorme tolerância religiosa e cultural de que davam – e dão - provas, ao invés de os tornar receptivos à pregação cristã, tornava infrutífera qualquer tentativa de os converter.

Quem conhece os tailandeses, no seu profundo apego às suas raízes ancestrais, na sua profunda fidelidade às suas tradições, na veneração pela figura do seu rei e num inalterável amor pela independência e liberdade da sua terra, poderá deduzir quão difícil seria mudá-los naquilo que os torna objecto da curiosidade ocidental e caso único num mundo que foi até há décadas dominado pela civilização europeia. O Sião/Tailândia manteve a sua independência com um sorriso, nunca tolerando que outrém se intrometesse e mudasse aquela natureza afável mas forte que conseguiu vencer todas as tentativas de colonização e domínio. Os portugueses depressa o compreenderam e passaram a tratar de igual para igual com os seus novos parceiros diplomáticos.

O Sião, por sua vez, manteve tal amizade para realizar necessidades militares e comerciais, dado que ao país chegavam com frequência navios carregados de produtos vindos de Macau, que depois zarpavam para outras paragens transportando produtos do país. A relação entre portugueses e siameses foi psicologicamente tão marcante que, ainda em meados do século 19, a língua internacional de comunicação de que os siameses se serviam era o português. Com efeito, o primeiro tratado entre os EUA e o Sião, assinado durante o reinado de Rama III, foi redigido em língua portuguesa. O tristemente célebre ministro do rei Narai, Constantino Phaulkon, casado com uma japonesa cristã que falava correctamente português, Maria Guiomar, também se expressava perfeitamente em português, ao ponto de, ainda hoje, e não obstante estudos sérios confirmarem a sua origem grega, muitos serem os historiadores portugueses a afirmar que ele seria um agente português ao serviço da Companhia de Jesus colocado na corte do Sião!

Mas esta relação ultrapassou largamente o domínio dos contactos comerciais, das conveniências políticas e das ilusões (goradas) dos religiosos católicos. Foi selada pelo amor de milhares de casamentos entre portugueses e tailandesas, deixou prole e resistiu à passagem do tempo. Ainda hoje, os tailandeses deliciam as suas bocas com doçaria que entrou na gastronomia do país através do influxo português (foi tong) ou servem-se de palavras de inegável origem portuguesa, tais como ray lang leilão), jor la kae (jacaré), sa boo (sabão), kanoom pang (pão), kang kreng kar seand (calção), durian (durião), krai (quem), noi na (anona)...

Os portugueses, entretanto, perderam a influência e o poder que haviam detido na Ásia. Em meados do século XVII, perderam, uma opós outra as suas possessões para os holandeses e ingleses, ou foram duramente combatidos pelos maratas (Índia), persas (Ormuz) e omanitas (costa Oriental de África). No século 18, já se haviam alheado quase por completo deste continente, resumindo-se a sua presença a Goa, Damão e Diu, na Índia, a Timor-Leste, Flores e Macau.

Sobrevivendo a terríveis guerras, voltaram-se para a colonização intensiva do Brasil, e depois, no século XIX, aprofundaram a colonização de algumas regiões africanas (Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe e Cabo-Verde). Nos territórios asiáticos outrora visitados pelos portugueses sobreviveram os descendentes cristãos dos templos de glória - os kristang - e a vaga lembrança dos dias em que os homens de grandes barbas dominavam os mares por onde circulava a pimenta, o açafrão, a noz moscada e a canela para os cofres do rei de Portugal.

Contudo, mesmo que decaídos, mantiveram os seus contactos com o Sião. Em 1767, nos dias trágicos do cerco, incêndio e queda da sua enorme metrópole, os mercenários da guarda do rei do Sião eram portugueses e bateram-se até ao último homem na defesa de uma terra que também consideravam sua. Depois, veio um interregno, longo de décadas, em que do Sião, reerguendo-se das cinzas, se voltou a ouvir falar. À nova capital, Banguecoque, erguida numa região insalubre pelo génio de Rama I, fundador da actual dinastia reinante, chegaram lentamente comerciantes portugueses, oriundos de Macau e de Goa, ou afluíram os sobreviventes do saque de Ayuthia. Os soberanos siameses voltaram a abrir o país aos estrangeiros e aos portugueses foi dado um terreno privilegiado, onde hoje se situa a embaixada de Portugal, um dos mais antigos edifícios da capital tailandesa. À sua volta cresceu uma pequena cidade cuja traçado arquitectónico encontra flagrantes analogias com os edifícios coloniais portugueses de Macau e da ex-Índia portuguesa.

O século 19 foi de grande dureza para a generalidade dos povos asiáticos. O imperialismo europeu lançou-se com brutal determinação sobre os estados independentes e, em poucas décadas, a quase totalidade destes caíram sob a colonização ou reduziram a sua condição a meros protectorados da Grã-Bretanha e da França. A outrora orgulhosa China, que se considerava a expressão mais elevada da civilização, foi invadida, pilhada ou envenenada pelo ópio vendido pelos britânicos, o Vietname, o Cambodja e o Laos foram integrados no império colonial francês, a Índia, a Birmânia e os sultanatos malaios passaram a integrar o império victoriano e o isolado Japão foi forçado a abrir os seus portos a norte-americanos e europeus sob ameaça de uma intervenção militar.

Apenas um país resistiu, com um sorriso, enorme habilidade e grande sagacidade diplomática dos seus reis: o Sião. Conseguindo harmonizar a tradição com a mudança, sinónimo de ocidentalização, o Sião de Rama IV e Rama V atraiu a curiosidade de viajantes, diplomatas, jornalistas e homens de negócios ocidentais, entre eles muitos portugueses. A luta do Sião pela preservação da sua liberdade e independência foi olhada com espanto por muitos europeus, convencidos da inelutabilidade da sua civilização triunfante. Portugal era também, na altura, detentor de um império colonial. Encontrava-se, porém, na defensiva, pois, como Estado fraco, sentia a pressão inglesa, francesa e alemã sobre as suas colónias africanas. Em 1893, a esquadra francesa entrou pelo Chao Phraya adentro e, sob ameaça da sua poderosa artilharia naval, ameaçou o Sião com uma invasão, caso os siameses não abandonassem de imediato algumas importantes províncias e as cedessem à Indochina francesa. O Sião, humilhado, teve de se submeter à chantagem. Apenas num país europeu, se levantaram vozes indignadas contra este triunfo do direito da força sobre a força do direito. Foi precisamente em Portugal que maiores foram os gritos de protesto. Porquê ? Porque Portugal, três anos anos, em 1890, fora sujeito à mesma ameaça da força. Os ingleses haviam ameaçado Portugal com uma guerra, se o governo de Lisboa não evacuasse imediatamente importantes territórios africanos cuja posse reivindicava. Os portugueses compreendiam que a sorte das pequenas potências, como Portugal e o Sião, depende, na arena internacional, do humor de predadores que ainda na véspera se diziam seus aliados!

O Sião passou a ser motivo de crónicas, algumas quase fabulosas. País exótico, imerso em costumes e tradições estranhas aos europeus, hábil na exploração da rivalidade entre britânicos e franceses, governado por soberanos que se sabiam expressar em inglês e francês perfeitos e se dedicavam com afinco a estudos de ciência ocidental. As viagens que o rei Chulalongkorn realizou à Índia britânica e Singapura, primeiro, e depois à Europa, contrariaram a ideia errada de que o Sião estava condenado, como os seus restantes irmãos asiáticos, a ser uma colónia da toda-poderosa Europa indústrial das metralhadoras, dos couraçados e das espingardas de repetição. Rama V, na sua primeira digressão europeia, passou por Portugal. O Sião voltou a encher parangonas de jornais e revistas e daí em diante jamais deixou de aflorar nas memórias e escritos de muitos portugueses que, passando pelo sudeste asiático, se sentiram tentados a visitar o país dos sorrisos.

O século XX, marcado por duas brutais guerras mundiais, marcou o fim da supremacia europeia sobre o mundo. A primeira guerra (1914-1918) anunciou a ascensão dos Estados Unidos e o nascimento da URSS, que, duas décadas depois, com o fim da segundo conflito mundial, passariam a dominar o planeta, dividindo-o em duas esferas de influência que manteriam a ordem internacional até 1991. Neste tempo longo de enormes convulsões e triunfo da modernidade, a nova fisionomia das fronteiras políticas, mentais e tecnológicas mudou radicalmente o mundo. Os europeus descolonizaram, as barreiras entre povos foram parcialmente suprimidas por efeito conjugado do nascimento de um mercado internacional, das telecomunicações e a chamada globalização impôs, lenta mas irreversivelmente, o nascimento de uma consciência planetária em que hoje vivemos.

Portugal e o Sião, rebaptizado de Tailândia, seguiram caminhos paralelos mas convergentes. Portugal teve um regime autoritário, de 1926 a 1974, assim como a Tailândia conheceu sucessivos regimes militares. Portugal alinhou na ordem internacional como aliado dos Estados Unidos, assim como a Tailândia enviou para a Coreia (1951-53) e para o Vietname (1961-1975) importantes contigentes militares em guerras de contenção do comunismo. Depois, ambos os países optaram por governos democráticos e constitucionais, bem como pela economia de mercado capitalista. Hoje, são dois parceiros nos grandes areópagos internacionais onde se discute o futuro da humanidade.

Infelizmente, os contactos comerciais, culturais, científicos e tecnológicos, são ainda pouco expressivos. Não sendo Estados concorrentes, poderiam, sem prejuízo recíproco, encontrar plataformas de interesse comum. Portugal é membro da União Europeia e detém relações diplomáticas de grande relevo com uma vasta comunidade de países onde a língua portuguesa é língua oficial (Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Tomor-Leste). A Tailândia, por seu turno, constitui um modelo de desenvolvimento equilibrado e detém a quinta posição económica na Ásia contemporânea, sendo como tal interlocutor de maior expressão para sãs relações bilaterais nos domínios financeiro, económico e comercial, político cultural entre a Europa e a Ásia.

(Textos por Miguel Castelo Branco)

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