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Duarte Barbosa (1480?-1521)

Partindo para a Índia em 1500, aí permaneceu até 1506, prestando serviço como tradutor. Voltou à Europa mas, em 1511 estava de novo no Oriente, exercendo as funções de escrivão. O texto de que fazemos a seguinte transcrição terá sido redigido em 1516. Não foi pensado como um livro, mas como um relatório secreto com descrição pormenorizada dos povos e estados do Índico de inícios do século XVI. Ficou esquecido durante séculos, até conhecer a sua primeira edição impressa no século XIX.

Descrição do Reino do Sião em inícios do Século XVI

"Para lá do reino de Pegu [Birmânia], ao longo da costa de Malaca, situa-se um grande reino povoado por não-cristãos que dá pelo nome de Sião. O seu rei é um grande senhor cujos domínios cobrem vastos territórios com acesso a dois mares [Andaman e Golfo do Sião]. O seu exército é poderoso, com numerosa infantaria, cavalaria e elefantes de guerra. Os muçulmanos estão proibidos de empunhar armas.
Perto de Pegu (Birmânia) encontra-se a grande cidade de Tanesserim, porto de mar onde habitam muitos mercadores mouros e outros não-cristãos que negoceiam todo o tipo de produtos que chegam e saem do reino em navios com rotas comerciais para Bengala, Malaca e muitos outros destinos. As terras que a cercam são ricas em incenso, feito a partir da resina de uma árvore a que os mouros dão o nome de lobão (1). O incenso que delas se extrai pode ser de dois tipos distintos: um que só produz cheiro depois de queimado; outro que exala um excelente perfume sem que seja necessário pegar-lhe fogo. A este porto vêm muitos navios carregados de cobre, azougue, pigmentos para tingir, sedas e veludos de Meca e Adem, produtos muito caros e procurados no Sião.
Passando a cidade de Tanesserim, ao longo da costa de Malaca encontra-se a cidade de Kedah (2), onde também aportam grandes embarcações. Aqui funciona um grande mercado de especiarias, sobretudo pimenta, que é comprada e transportada para Malaca e para a China.
(...) Neste reino do Sião há muito ouro, que se encontra na região de Pahang (3). (...) Este rei do Sião é, como já dissemos, um grande senhor adorador de ídolos e protector de muitos templos. Os siameses andam de peito descoberto e cingem à cintura uns panos de algodão. Alguns, porém outros envergam uma camisa de seda. Na sua terra há abundância de alimentos, muitos tipos de arroz e carnes de criação e caça, pois são grandes cavaleiros e caçadores.
No interior do reino há uma vasta planície [Issan] onde, quando alguém morre, os parentes ou amigos do falecido têm o hábito de comer os seus restos mortais. Fazem uma fogueira, pendurando o cadáver sobre o fogo ateado e, depois de chorarem a sua partida, ingerem grandes quantidades de vinho e comem o corpo, de que não restam senão os ossos. Dizem que fazem este tipo de enterro pois o melhor local para depositar os seus entes queridos é o seu próprio corpo. Este abominável costume não é praticado senão nesta região do reino pois, nas demais, os corpos dos falecidos são queimados."

BARBOSA, Duarte. Livro em que dá relação do que viu e ouviu no Oriente
Duarte Barbosa. Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1946, p. 199-201

(1) Celtis australis: árvore de grande porte, que atinge até 25 metros de altura e possui uma copa arredondada e de grande densidade.
(2) Hoje cidade da Malásia.
(3) Pahang situa-se hoje na Malásia.

(Recolha de textos por Miguel Castelo Branco)

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