Sarmento de Beires (1892-1974)
Sobrevoando o Sião (1924)
“Quando entramos no vale do Menam (...), a planície alonga-se em várias em vastas campinas de vegetação baixa que nos atraem, num convite mudo a voar mais baixo, sob um céu de iluminura, tão azul como o céu de Portugal.
Não há estradas. Apenas uma linha férrea riasca na coloração uniforme do terreno, um traço de carvão. Sobre Ayuthia, os campos alagados recomeçam, e o voo retoma o seu carácter de farandola irritante.
Perto das duas horas, a esplanada do aeroporto de Don Muang recorta-se como quadrilátero branco no horizonte. E aterra-se com prazer, porque a pista é magnífica e o voo durou cinco horas e quinze minutos.
A aviação siamesa recebe-nos como todas as aviações nos receberam: espírito de classe, entusiasmo, simpatia e amizade.
O general comandante da base, que nos esperava no campo com vários oficiais, informa-nos em francês de que temos à nossa disposição uma equipa de mecânicos e o combustível necessário para enchermos os depósitos.
É necessário substituir um cabo de comando do leme de profundidade e remendar a tela da fuselagem. Disto informamos o director do hangar de montagem, oficial piloto que nos escuta atentamente, e a quem deixamos entregue o Pátria II.
Pelas quatro horas, tomamos lugar no comboio que nos leva a Banguecoque, vinte quilómetros ao sul, e ali somos recebidos pelo Chefe de Estado-Maior, irmão do rei, e pelo cônsul interino de Portugal, italiano melífluo e poseur que tem para connosco atitudes cerimoniosas de ministro.
Para sermos recebidos no consulado é necessário que nos anunciem com alguns minutos de antecedência e que esperemos um quarto de hora num salão de mau gosto, com pretensões a Luís qualquer-coisa. Oferece-nos [o cônsul] um jantar no hotel, e reflecte-se-lhe na face bem barbeada, cuidadosamente barbeada, que uma camada de pó-de-arroz amacia, a indiferença que lhe merecemos e a amabilidade forçada do cargo oficial.
No clube, porém, há um minuto de verdadeiro entusiasmo, entre franceses, ingleses e aviadores siameses, que brindam pelo nosso êxito, sinceramente.
Modesto, quase humilde, o macaense Joaquim António, é uma alegria íntima, a querer traduzir-se em palavras, a querer expandir o que sente. Nas lembranças que nos oferece, as suas mãos põem frémitos de dedicação espontânea, de simplicidade cativante.
Na manhã do dia seguinte – 10 de Junho – o comboio leva-nos de novo a Dawn Muang, de onde não conseguimos descolar por se encontrar avariada uma das bombas elevatórias de gasolina, cuja reparação indicamos como deve ser feita e fica entre mãos de um mecânico siamês.
Para matar o tempo e tédio, percorremos as instalações das oficinas e depósito de Dawn Muang, que nos surpreendem, que nos maravilham – e porque não confessá-lo ? – que nos entristecem ao recordar a miséria em que vive a nossa aviação.
Na pista imensa (cerca de dois quilómetros quadrados de terreno), os oito hangares de alvenaria deixam ver pelas grandes portas abertas, numerosos aviões de escola, de caça, de bombardeamento, de observação, limousines e ambulâncias. Esta multiplicidade de tipos de avião resume-se, contudo, a três únicas marcas: o Nieuport, para escola; o Nieuport-Delage para caça; e o Breguet para o resto.
Não muito longe, as oficinas em cujo acabamento se trabalha, estão cheias do labutar ruidoso das máquinas que preparam material para os aparelhos, cuja célula é inteiramente construída ali, sendo exclusivamente importada parte do material de construção e o motor.
O serviço postal aéreo, feito por oficiais do exército, funciona regularmente, trazendo para a aeronáutica uma receita importante.
E como os setenta e dois aeródromos que polvilham o território siamês inspiram confiança aos amantes do ar, o número de passageiros vai aumentando dia-a-dia.
A gente observa, escuta, e inconscientemente compara. Como é grande, na realidade, a diferença entre o critério dos governantes siameses e o da maioria dos governos portugueses...
Ali, naquela nação longínqua dos confins da Ásia, onde julgávamos encontrar um povo selvagem, a aviação é olhada como arma indispensável na paz e na guerra. Por certo, se pretendermos compará-la com os exércitos aéreos das grandes potências, o Sião está longe de ter atingido aquele desenvolvimento colossal. Pequena potência como nós, no entanto, a sua aviação pode ser considerada já como modelar.
No nosso país, as verbas que em 1921 o Parlamento aprovou, são hoje, com reduções incongruentes e absurdas, aquelas que, com a boa vontade dos aviadores, servem para manter a Aeronáutica Portuguesa.
O raciocínio passa-nos no cérebro, enquanto o tenente Chandraveguine nos vai ciceronando através das instalações. E no céu da tarde que pesadas nuvens de tempestade assaltam, a nossa alma nostálgica sofre dolorosamente a pensar em Portugal...
No dia 11, sob um tempo medíocre –aguaceiros e ventania – atingimos Oubon, depois de uma viagem feita à velocidade média de 183 quilómetros à hora, em que Brito Pais mais uma vez se manifesta o grande orientador de sempre.
Durante o voo, há um campo de recurso, em Korat, que assinalamos pela sua grande cruz branca. E como nota de beleza, a passagem entre duas montanhas, num colo estreito, coberto de floresta espessa, através da qual, nas curvas suaves duma linha férrea, um comboio vai avançando lentamente.
Oubon é uma cidadezinha modesta, quase uma aldeola, no interior do Sião. Somos recebidos por um sargento aviador, chefe de pista, que apenas conhece duas ou três palavras de francês, e por um intérprete incompreensível.
Apesar disso, porém, o Pátria II é recolhido sem demora ao magnífico hangar, é lavado, é limpo e fazem-se os plenos. No auxílio que nos prestam em Oubon, onde a boa vontade tinha de suprir a facilidade de nos compreendermos por palavras, verificamos uma vez mais a grande mutualidade aeronáutica, e vinca-se-me mais fundamente no meu espírito a impressão do papel socializador que está reservado à aeronáutica.
Para os aviadores não há fronteiras. A nossa pátria é o mundo. O espírito de sacrifício prevalece acima de todos os outros sentimentos. E um feito aeronáutico, qualquer que seja a nacionalidade daqueles que o executam, faz vibrar todo o mundo, a grande família daqueles que sabem o que é voar !
O chefe de pista, tipo de verdadeiro soldado, taciturno, concentrado, leva-nos num side-car ao palácio do alto comissário, velhote esperto e vivo, que só conhece a língua nacional, que masca betel patrioticamente, tem os dentes lacados e nos recebe no trajo regional: casaco branco, calções roxos pelo meio da perna, meia de seda creme e sapatos de fivela. Sua excelência, que conversa connosco através de um oficial que fala francês correctamente, oferece-nos um almoço a que não comparece, mas que faz honra ao cozinheiro; e à noite, num edifício público, assistimos a um banquete em que as nossas três fardas se destacam sombriamente, na coloração garrida dos uniformes que envergam os outros convivas.
A paisagem, de um pitoresco indescritível, atinge em Oubon o auge do esplendor. Dir-se-ia que estamos em plena selva, de tal maneira é densa e luxuriante a vegetação que nos rodeia.
Quando passamos no side-car através dos caminhos estreitos, os indígenas param, olhando-nos com indiferença, apesar do seu estado de civilização rudimentar. O vestuário do homem do campo reduz-se a uma espécie de tanga que lhe envolve os quadris, e o da mulher a uma faixa suja que lhe esconde os seios, e um saiote curto, até ao joelho. Não se descortina beleza nesses rostos terrosos, bolachudos, de olhos oblíquos e boca negra de betel.
A maneira de saudar é original e curiosa. O homem põe as mãos, como se fosse orar, avança-as em direcção ao visitante e baixa a cabeça, tanto mais quanto maior a consideração que lhe merece a pessoa que saúda. A mulher, acocora-se primeiro, e junta também as mãos, baixando o olhar pudicamente”. (...)
(Recolha de textos por Miguel Castelo Branco)
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