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Ferreira de Castro (1898-1974)

“O “Maradu”, vindo do Bornéu, deixa-nos em singapura e, dias depois, fazemo-nos de novo ao mar. Um velho e pequeno barco, o “Kudat”, toma rumo a Bangkok.
Voltamos a costear a longa península de Malaca, desta feita pelo lado do Oriente, com a proa talhando sempre o Golfo do Sião. O mar perdeu a cor verde que apresenta no Índico. Aqui, o azul marinho é tão forte que não dá, sequer, a ilusão de se fundir com o céu na linha do horizonte. Dir-se-á que navegamos sobre uma grande plataforma oval isolada no espaço e que nos despenharemos em incomensurável abismo ao atingirmos o limite marcado pelos nossos olhos.
O Sião, reino lendário, mais rico de motivos do que a terra dadora das “Mil e uma noites”, está afastado das grandes linhas de navegação indo-pacíficas, metido, como se encontra, num recôncavo do continente asiático. E, por causa disso, poucos curiosos, dos que transitam no Oriente, se abalançam a torcer o seu caminho e a ir contemplar, lá no fundo do compridíssimo golfo, o singular país. No convés do “Kudat” vagueiam apenas, além de nós, dois chineses, habitantes de Bangkok, e duas americanas, que andam a dar a volta ao mundo, em sentido oposto ao que tomamos.
A viagem dura três dias e, à terceira manhã, levantam-se, à nossa frente, várias ilhas cobertas de arvoredo. São já arquipélagos siameses, fonte de receita do governo nacional, não pelas suas madeiras ou o seu arroz, mas por algo menos vulgar: pelo trabalho dos seus pássaros.
É nestas e noutras ilhas orientais que se colhem os famosos ninhos de andorinhas, especialidade da culinária chinesa de que tanto se fala no Ocidente (...).
As ilhas siamesas desaparecem da nossa vista e, ao crepúsculo, já no fim do golfo, encontramos o barco dos pilotos, um velho navio que, em lugar da chaminé, ostenta um farol. A terra não é ainda visível. Ao cair da noite entramos na foz do Menam, cujas águas o navio combate durante algum tempo. Mais tarde, ouvimos cair a âncora. Bangkok está ainda longe, assente à beira deste rio, 25 milhas distante do mar. Mas como a navegação nocturna é, aqui, perigosa, só continuaremos viagem quando amanhecer.
Ao entramos no nosso camarote, vemos – coisa inédita na nossa viagem – um mosquiteiro sobre o beliche. Depois, o médico de bordo diz-nos ser Bangkok, entre todas as capitais do mundo, a que mais mosquitos tem e que havemos de sentir a presença obstinada do ferrão desde a nossa chegada até à hora da partida.
Apesar da ventoinha, dormir sob o mosquiteiro, no pequeno camarote do “Kudat”, é quase impossível. Sufoca-se de calor. E cá em cima, no convés, é um suplício também. Somos constantemente mordidos.
(...) Na manhã seguinte, recomeçamos a subida do Menam. Vamos dobrando curvas após curvas, sempre com uma tropical paisagem de coqueiros e bananeiras a exibir-se dum lado e outro. Aqui e ali, erguem-se barracas sobre estacas; ali e além, templos budistas, com as extremidades dos vários telhados sobrepostos volvidas para cima e, depois, brancos pagodes que parecem enormes funis postos na terra pela parte mais larga.
(...) À medida que nos aproximamos de Bangkok, o movimento do rio torna-se mais intenso, pois quase toda a vida do Sião, pais sem estradas, se faz, ainda, por via fluvial. As construções ribeirinhas multiplicam-se, tendo sempre, por fundo, um espesso muro de coqueiros. E surgem, de ambos os lados, lojas comerciais lacustres, onde se vende de tudo e que só se atingem de canoa. Têm à frente um minúsculo cais de madeira, onde embarca e desembarca a clientela. E todos estes trapiches estão pejados de gentes semi-nuas, de homens, mulheres e crianças, de sampãs que vão e vêm, num tráfego incessante. Mais adiante, principiam os armazéns de arroz, a maior riqueza do Sião. Milhares de chineses e siameses, na cabeça chapeirões de copa cónica, uns, de copa redonda, outros, e sobre o ombro a clássica vara redonda, outros, e sobre o ombro a clássica vara com dois cestos nas extremidades, em forma de balança, transportam o grão precioso das barcaças para os armazéns. Entre as lanchas, os rebocadores e os sampãs que congestionam o rio, navegam pirogas, de proa e popa alçadas, conduzindo monges, com os seus mantos cor de laranja, a caminho dos templos que irrompem do lustroso arvoredo, por toda a parte. É o mais exótico espectáculo de todos os rios do Oriente e o sol matinal, prateando as águas, tornando mais vivas as túnicas amarelas dos monges e recortando o desenho de milhares de embarcações e os gestos dos que nelas andam, dá-lhes relevo extraordinário. Nas margens, os siameses e chineses que trabalham nos armazéns, dir-se-ão obsessionantes figuras de noite de insónia, personagens de cena mitológica, sempre a subir e a descer, com os cestos aos ombros.
Chegamos, finalmente, a Bangkok, que se estende nas duas margens do Menam ligadas por algumas pontes. Um grandioso monumento, o Wat Arun, o Templo da Aurora, que parece constituído apenas por torres, a do centro altíssima, refulge na margem direita, dominando completamente a cidade, da qual espreitam, por cima do casario, os pináculos de muitos outros santuários.
O “Kudat” atraca a um pobre cais. Joaquim Campos, médico, historiador e cônsul honorário de Portugal, surge a bordo. É um prestigioso português de Goa, de bondade infinita e vasta cultura e só graças à sua presença se atenua a arte de ser desagradável às visitas que os alfandegários siameses cultivam e que parecem ter aprendido com os seus colegas japoneses. As maletas dos outros passageiros são examinadas peça por peça, com mais calma do que um suiço pode ter ao montar um dos seus relógios.
Por fim, um carro leva-nos ao “Trocadero Hotel”, um albergue francês. É a hora do almoço e vamos, assombrados que, de cinco em cinco minutos, um espampanante “caçador” de mosquitos de aproxima de nós e dos demais hóspedes e, com um aparelho “Fly-Tox”, irriga-nos as pernas, por causa dos mosquitos !
Como capital, Bangkok é um povoado bem modesto. Como manifestação de pitoresco e arte oriental é uma das cidades mais ricas do mundo. Cidade desgrenhada, pouco limpa e cortada por numerosos canais, o muito feio e o muito belo nela alternam constantemente. As poucas ruas de Bangkok são de medíocres casas. No rés-do-chão, estadeia-se um desordenado comércio chinês; no primeiro e único andar, muito baixo, habita a família do comerciante. Por toda a parte, barracões de tábua e zinco, cabanas de palha e sinuosos caminhos que de ruas têm o valor. De quando em quando, ao lado das barcas, um violento contraste, um aparatoso edifício moderno. Sobre as fachadas, tabuletas de estranho efeito, em língua siamesa, que é revivescência do páli e do sânscrito, e, por baixo de algumas delas, a tradução em chinês e em inglês. Nas ruas transitam homens de estatura pequena e pele escura e mulheres, pequeninas também, mas de graciosas linhas, todas elas de cabelos curtos e uma carita de expressão inocente. Sãos os siameses. Muitos siameses vestem já à europeia; outros usam, ainda, o panung, longa faixa de tecido cuja extremidade, dando volta por entre as pernas, vem amarrar na parte posterior. Forma-se, desta maneira, uma espécie de brancos e largos calções. À frente, descem até os joelhos e, atrás, deixam ver metade das coxas. Com as dobras de outra faixa – o pan-hom – tapa-se o peito. A cor do traje depende do dia em que cada um nasceu e, assim, a população siamesa apresenta-se numa interminável policromia. Cada dia da semana o rei tem direito a usar uma cor até esgotar as sete do arco-íris e, nesse dia, cor igual não é permitida nas vestes dos súbditos. Actualmente, porém, só nas cerimónias nacionais o rei usa o panung.
Percorrendo-se Bangkok tem-se a ilusão de que não existem siameses velhos. A velhice tarda tanto a enrugar a cara do homem, que, um dia, ao sermos apresentados a vários ministros e a outros funcionários do estado, julgamos que o Sião, para em tudo ser único, possuía um governo constituído por rapazes. E não sem surpresa soubemos que homens a quem acreditávamos vinte e cinco anos contavam muito mais de cinquenta.
Entre os siameses transitam, nas ruas de Bangkok, os chineses, pois a sua colónia é enorme e a ela pertence quase todo o comércio. Usam calças e blusa, de seda os que podem, de outros recidos os menos beneficiados de dinheiro. Os seus filhos, redonditos, carita de boneco, o cabelo rapado em volta de um tufo sobrevivente, constituem o maior encanto humano, a mais delicada ternura destas ruas. Bangkok é o verdadeiro paraíso das crianças, pois elas vivem, por toda a parte, completamente nuas...
Como no Japão, os jirinxás desapareceram da capital siamesa. Os chineses que os puxavam, entre dois varais, sentam-se, agora, nuns triciclos nipónicos pedalando à frente, enquanto o cliente vai refastelado atrás. Andam às centenas, na cidade inteira, entre velhos automóveis e um ou outro carro mais novo, pertença dos ministros da nação, dos diplomatas ou dos grandes negociantes chineses e britânicos.
Antes dos jirixás, haviam desaparecido outros famosos adornos das ruas de Bangkok: os gatos siameses. Aconteceu aqui o mesmo que em Angorá: como se tratava de um produto nacional, pouco apreciado, não houve o cuidado de evitar cruzamentos e, assim, vêem-se hoje mais os gatos siameses no estrangeiro do que no próprio Sião.
Não é, porém, a estas ruas e a estas tortuosas veredas, por onde passeiam bichanos mestiços e transitam peões e veículos, que Bangkok deve o seu carácter. O que dá típica fisionomia à capital siamesa não são as ruas, são os klongs, canais de água espessa.. A vida de Bangkok é a vida destes líquidos corredores. Milhares e milhares de canoas, com tecto abrigador de chuva e sol, comprimem-se entre duas filas de barracas que debruam os canais. Nelas, vagueando de klong em klong, vive grande parte dos siameses de Bangkok, cidade de 900.000 habitantes. Ali nascem, ali realizam todos os actos da sua existência e ali morrem; não conheceram jamais outra habitação e não sabem, sequer, andar em terra. Mudam de canal como que muda de rua e, se se enfastiam da vida na cidade lacustre, remam um pouco mais e vão fundear num dos outros klongs que o rio apresenta acima e abaixo de Bangkok. Dum dia para o outro forma-se, assim, sobre a água escura metida entre viçosa floresta, uma aldeia boiante, que, mais tarde, se desfaz com a mesma facilidade com que se constituiu. Os funcionários da estatística vêem-se em apuros para realizar o censo destes seus compatriotas, pois nunca a designação de “população flutuante” foi tão bem empregada como em Bangkok....
Algumas destas embarcações, fortes no seu casco de teca, são garridas e mobiladas como verdadeiras casas: cobertas de palha, madeira ou zinco, apresentam divisões interiores, com espelhos e fotografias emolduradas nas paredes, objectos femininos e até cadeiras de lona, numa espécie de varanda, à proa ou à popa. A maioria é, porém, orfã de qualquer conforto. Pequenas e sujas, a vida humana atinge, ali espantosa falta de privacidade.
Entre esta multidão de canoas habitadas, cirandam outras, pequeninas, esguias, descobertas e cheias de variadíssimos objectos, alimentos e bebidas. São os vendedores que, sentados sob um guarda-sol de cor, fornecem a população aquática. Na borda do barquito levam uma buzina, que tocam de quando em vez para assinalar a sua passagem aos que queiram comprar.. Por outro lado, Bangkok possui um grande mercado flutuante, destinado aos habitantes de terra, um dos mais pitorescos mercados do Oriente. Centenas de sampãs, vindos do Menam e ribeiros afluentes, para aqui transportam legumes e pomos exóticos. Compram-se frutos de maravilhosas cores andando-se de canoa para canoa, em passo de marinheiro, por entre homens e mulheres de troncos nus e gritos e movimentos de crianças, tudo numa confusão sem igual.
Alguns destes canais são cortados por pontes cobertas de casas e os que vivem em cima, no piso firme, podem ver passar, sob o soalho, as residências flutuantes destes eternos vagabundos dos klongs de Bangkok. Quase sempre o habitante duma canoa goza e sofre a companhia de duas e três mulheres, acostumadas a aceitarem, sem protesto, o papel ora de favoritas, ora de renegadas, no pequeno espaço em que todas se movem. A lei do país consente a poligamia e se os siameses dos canais, por falta de dinheiro e de superfície habitável, limitam a sua ambição a poucas esposas, os da terra vão mais longe e juntam tantas quantas puderem. É como um seguro contra a invalidez: se um dia um homem se arruina, ou, por doença, deixa de trabalhar, serão elas que trabalharão para ele e, assim, quanto maior for o número de mulheres que o feliz marido possua, maior será, também, o benefício que ele recolherá.
Na capital, uma esposa já não tem preço, mas no interior, lá para o norte onde crescem as tecas, ainda persistem os velhos costumes. O homem deve entregar aos pais da escolhida o sin-sod, o dinheiro que os indemnizará de quanto gastaram a criar e a educar a filha até ao dia em que ela se casa. (...) A cerimónia do casamento – um banquete e uma benção lançada pelo mais velho dos presentes – só se realiza com a primeira mulher; as outras são, contudo consideradas esposas legítimas. (...) O marido possui, durante toda a vida, o direito de dar quantos bens entenda às suas favoritas; depois de morto, metade do que lhe pertenceu será da primeira mulher e o resto dividido pelas outras.
(...) Mas a capital siamesa não é apenas isto, não é apenas estes canais e estas ruas onde os homens estimam viver com muitas mulheres e vestir-se com panungs. Esta humilde população (...) conta, na sua capital, algumas maravilhosas obras de arte e são elas que, ao lado do pitoresco (...), tornam Bangkok inesquecível e verdadeiramente deslumbrante em muitos dos seus trechos: uma das mais estranhas cidades do mundo. Há templos budistas por toda a parte, e templos que não se vêem em mais parte alguma.
(...) Na terra siamesa, o budismo constitui a religião oficial e pode dizer-se que todos os habitantes, salvo uma minoria (...) são budistas. Assim, nas margens do Menam, que fertiliza o país, não existe quilómetro de chão sem um pagode erguido a Buda, servindo a paisagem ribeirinha de verde moldura às cúpulas sagradas. E nas cidadezitas e aldeias do interior, os opulentos santuários do deus multiplicam-se também entre o triste e desconfortável casario dos homens.
Em Bangkok, alguns destes monumentos constituem algo extraordinário, maravilha de forma e de cor, como só muito dificilmente se pode imaginar. O templo maior, o do Buda de Esmeralda, ou Wat Phra Keo, queda em frente do palácio real, à beira do rio e ocupa uma superfície de quase dois quilómetros quadrados. Transposta a vasta muralha que o cerca, encontramo-nos perante sucessivas e espantosas construções, que subitamente nos lançam num mundo fantástico, um mundo de sonho que, mesmo quando estamos a vê-lo, duvidamos da sua existência. É uma alucinante floração de templos das mais imprevistas linhas, de cúpulas douradas e de torretas policromas, de portas de ouro e de paredes revestidas de pedras cintilantes, que enchem tudo numa eterna fulguração, cromáticos revérberos que extraem de quanto contemplamos todo o sentido de realidade. Os telhados sobrepostos e de pontas recurvas, espectacularmente envernizados a ouro e vermelho, parecem asas abertas sobre os templos, de onde brotam metálicas serpentes, para o grande milagre aéreo. Gigantescos demónios – os yagas – de mãos pousadas sobre uma espécie de bordão, uns de trajes vagamente europeizados, outros com essas vestes e máscaras siamesas, guardam os monumentos. (...) .é o Oriente que todos nós sonhamos antes de visitar o Oriente, um mundo de esplendor, de sortilégio, as formas levadas ao extremo da imaginação e às sugestões contraditórias, a beleza vista por almas enfebrecidas numa câmara de fenómenos, onde parece estar enclausurado o próprio arco-íris.
Vamos andando e vamos encontrando sempre mais pagodes, mais monumentos, todos de traça diferente, todos fantasmagóricos. O estilo siamês é complexo, de mil curvas, de mil caprichos e de rendilhadas delicadezas; um estilo, ora realista, ora inverosímil, que desconhece a sobriedade mas que consegue, quase sempre, obter uma suprema harmonia dentro duma suprema exuberância. Os autores destes santuários deram à arquitectura expressões que dir-se-ia serem possíveis somente nas tintas duma ilustração de fábula.
Neste singular parque de irisações, há templos que se abrem resvés à terra e outros que fogem dos nossos pés, exibindo-se sobre terraços, para onde se ascende por brancas escadas com balaustradas de marmóreas rendas, como se tudo fosse espuma. De quando em quando, encontramos um prang e, depois, um grupo de oito, simbolizando outros tantos planetas. São como torres que se vão afusando e terminam em feixes que lembram estilizações de espirais de milho. Obras com influência de arte khmer, que floriu no Cambodja, estes prangs tiveram a sua origem nos do famoso templo maior de Angkor, (...). Mas o que é original da cultura siamesa e importado de outras brilham igualmente no vastíssimo recinto do Wat Phra Keo, por toda a parte surgindo formas esbeltíssimas e formas extravagantes, tão numerosas e tão variadas que, em certos trechos, os monumentos parecem confundir-se num mágico conjunto, obra de apoteose que cega a vista e anula todo o poder de análise. Parece que deambulamos numa cidade de sonho, que viverá apenas o instante duma miragem.
Ao centro de todos estes fúlgidos pagodes, exibe-se o templo principal – o do Buda Esmeralda. Guardadas por cinogrifos e outros animais imaginários, as suas portas de ouro trapezoidais mostram-se tão lavradas como se fossem trabalho de ourives. Mal se abrem, uma profusão de oiros ofusca os nossos olhos. Estranhas pinturas cobrem as paredes e peregrinas figuras, vasos, árvores de oiro e prata, outros ornamentos enchem o santuário. Buda está sentado ao fundo, sobre uma espécie de torre. Ao contrário da designação, a imagem célebre não é de esmeralda, mas de jade transparente, talhada num só bloco, constitui peça única no mundo. À sua frente ergue-se um pára-sol de sete andares e, dos lados, outros nove – sinal de realeza. Os soberanos do Sião saem do seu palácio e vêm orar aqui. Por isso, quem não é rei, só pode entrar no templo às sextas-feiras e, ainda assim, com uma licença especial.
A muralha que cerca os monumentos forma, da banda de dentro, uma longa galeria e nesta se vêem infindáveis pinturas murais, deslumbrantes cenas do Ramayana, de colorido e desenho curiosíssimos, aos quais a penumbra local aumenta a expressão de obra extra-terrena.
Ao fundo do grande parque religioso encontra-se o palácio real – o Chakri – fachada de estilo italiano e três pisos de numerosíssimas janelas. O telhado é de linhas siamesas, mas nem isso consegue ligar capazmente o casarão à prodigiosa fantasia que caracteriza os pagodes que o precedem.
Interiormente, a sala do trono mostra-se rutilante de mármores e oiros, de lustres e panóplias, com inúmeros pára-sóis de cinco andares ao longo das paredes e um de nove em frente do trono. E são estes exóticos dosséis que dão carácter a toda a riqueza asiática que vamos encontrando, metida, por estranho contraste, num edifício Renascença. Nas outras salas, sempre a exuberância decorativa, a mesma opulência de oiros, estátuas, quadros, o gosto do Oriente e do Ocidente confundidos a cada passo, sob tectos dourados e vermelhos. Aqui e ali, relíquias do passado. Este palácio Chakri não conta ainda duzentos anos, mas nele se tem procurado continuar a história do Sião, país velho de sete séculos – uma criança se o compararmos com a China sua vizinha. Os siameses de hoje são a antiga raça thai, que vivia sob o domínio dos khmers, senhores do Cambodja e suas redondezas. Em 1257, porém, o povo thai sublevou-se e conseguiu fundar uma pequena nação em Sukothai, logo aumentada pela conquista do vale do Menam. O seu primeiro soberano, Po-Khun Ram Kamhaeng, foi, também, o primeiro heróis nacional e tanta obra fez, tanto alargou o reino, que os outros da sua dinastia ficaram na sombra, tão desvalorizados que os próprios historiadores siamesses só os citam por obrigação. No século XIV iniciava-se outra dinastia e a capital foi transferida de Sukothai para Ayudhia , a algumas dezenas de quilómetros do sítio onde, hoje, se estende Banguecoque. A nova capital cresceu em casas pobres e em palácios reais de influência khmer, estes com opulências tão miríficas que deslumbravam os próprios magnates orientais.
Em 1511 produzia-se, em Ayudhia, um acontecimento sensacional. Os siameses, que até esse momento só conheciam os amarelos da China e os escuros do Cambodja, da Malásia, Birmânia e Índia, viram desembarcar na sua capital, de um junco chinês, um homem branco – uma cor de pele que nunca tinham visto. Era um português – Duarte Fernandes – e era o primeiro europeu que pisava terras do Sião. Afonso de Albuquerque, logo que conquistara Malaca.

(Recolha de textos por Miguel Castelo Branco)

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