Ligações
Homepage
Quem Somos Menú Agenda Cultural Portugal e o Sião Contactos e Reservas

Francisco Cortez Pinto

“Deixemos porém a Índia e voemos até ao Sião (Thailândia). O Sião é um país que nos encanta. Povo risonho e, aparentemente, feliz; neste momento sofre da abundância do arroz, que tem dificuldade em vender.
Bangkok é uma cidade agradável, com o seu rio Me-Nam, que faz parte integrante da cidade. Logo à primeira vista, atrai-nos com a vista dos seus palácios e pagodes, todos com tectos pontiagudos, de uma arquitectura complicada e riquíssima.
O rio Menam mostra um aspecto curioso de Bangkok. Logo de manhã, seguimos em um barco vermos o mercado flutuante, onde tudo se compra e vende, em barcos e nas lojas das margens, montadas em cima de pilares e com escadas para o rio; os pilares não são só para vencer a altura para o rio, mas também para pôr os habitantes ao abrigo das cheias. Nuns barcos vendem-se frutas, hortaliças, tecidos, que se desembrulham à vista do freguês que, no barco atracado, vai examinando e faz a compra. Há barcos com uma cozinha, que vão vendendo refeições às pessoas de outros barcos, ou das margens. Tudo isto se faz sem ruído. Como a maioria dos barcos tem motor, há bombas no alto, nos estabelecimentos, nas margens do rio; quando necessitam gasóleo, o ajudante do barqueiro, que vai sempre afastando o barco das margens, ou dos outros, com um croque ou com os pés, que se deita à água para auxiliar uma manobra, saltando depois lentamente para o barco, grita para o homem da bomba que, quando o barco atraca, lhe lança de cima a mangueira; o barqueiro vai vendo o mostrador da bomba, ou salta para o pé dela e no momento oportuno dá sinal de fechar, pagando a conta.
A multidão que se cruza connosco é muito pitoresca: homens de busto nu, mulheres envolvidas em um pano, chinesas com o tradicional vestido de seda, lojas de arroz, de peixe, de ananases peludos e frutas especiais que todos oferecem, de chapéus de palha, sacos, mercearias, etc.
A animação no rio atinge o seu auge na grande festa nocturna, o Tot-Kathin. Os budistas deixam barcos iluminados com velas e carregados de ofertas, seguir à deriva; embaraçam-se uns nos outros e, sem questões, sorriem, gritam e vão andando.
Toda esta gente das cercanias se banha no rio, cozinha com esta água barrenta, onde vão ter os esgotos; gente alegre, risonha e bem nutrida.
Sigamos pelo rio Menam. Visitamos o Palácio Real e os grandes templos: o Wat Pra-Kéo, onde o soberano recebe todos os anos as homenagens dos seus vassalos; o Wat Po, com o seu Buda gigante; o Wat Saket, no bairro das casas de pilares dos pescadores; o Wat Bem-Cha-Mabopit, pagode de mármore que é considerado como uma das maravilhas da arquitectura religiosa; o Wat Cheng, que eleva para o céu o seu cone de pão-de-açucar, etc, etc. São trezentos santuários, todos de arquitectura estranha e opulenta!
A colecção de barcos reais é muito bonita. Estes barcos têm lugar para 40 a 60 remadores, proas com dragões de 7 cabeças, com aves religiosas, todos em dourados e cores variadas, embutidos de marfim e madrepérola. Todos esses barcos saem com o Imperador e comitiva, pelo menos uma vez por ano. O povo está descontente porque este ano o Imperador não saiu na procissão e parece interessar-se mais pela Europa que pelo Sião..., deixa as tradições, etc, etc; tudo isto nos é dito, calmamente, tristemente, sem indignação ou gestos de revolta....à oriental.
(...) “No caminho para o Wat-Ben-Cha-Mabopit visitámos o serpentário, onde muitas serpentes estão a fornecer o veneno para os soros. O Wat-Ben-Cha-Mabopit tem um Buda enorme. Tivemos ocasião para assistir à sagração de dois novos bonzos, tendo sido para isso convidados pelo Superior do Convento.
O templo estava cheio de convidados, das duas famílias. Na parte que corresponde ao nosso altar-mor, estava o Superior, que, com um ar afável, falava aos iniciados e ao público sobre a nobreza da missão dos bonzos e da sua religião superior, dirigindo-se também para nós. Eu e minha mulher e alguns amigos estávamos sentados, em meias, e o intérprete traduzia-nos algumas das frases.
A família de um dos iniciados chamou um seminarista, deu-lhe dois refrescos e vimos que marchava de joelhos até nós, oferecendo-nos essas bebidas que nos souberam deliciosamente, porque estva um calor horrível. Outros bebiam refrescos também e, junto aos pais, estavam os presentes para os novos bonzos, com o enxoval que os padrinhos, família e amigos lhes ofereciam.
Rezas, genuflexões, litanias e assim terminou a cerimónia. Saímos depois por um cláustro, com uma grande quantidade de Budas, que serviam de sarcófagos onde as pessoas importantes guardavam as cinzas; passámos igualmente pelo local das incinerações. (...)”

Pinto, Francisco Cortez. Impressões sobre o Japão e algumas regiões do Oriente. Lisboa: S.n., 1956.

(Recolha de textos por Miguel Castelo Branco)

< VOLTAR |

Imprensa Ligações