Mário Cardia
O país do sorriso
“Logo que cheguei a Bangkok – a grande cidade (capital da Tailândia) com mais de dois milhões de habitantes – certifiquei-me do que tinha ouvido afirmar: a Tailândia – o antigo reino do Sião – é um país de gente amável, bem alimentada, feliz. Os primeiros contactos revelaram-me o contraste com outras cidades do Extremo-Oriente, onde vivem – ou melhor, vegetam – e enchem muitas ruas das cidades, criaturas enroupadas em pobres farrapos, mal nutridas, mendigando. Em Bangkok não vi mendigos. A Tailândia é um país de poucas pessoas ricas, mas são pouquíssimos os miseráveis.
O tailandês apresenta-se sempre sorridente, jovial. Pode também dizer-se que o seu país é alegre e prazenteiro. A Tailândia é bem “o país do sorriso” – sorriso nos modestos comerciantes dos canais, nos homens de negócios de Bangkok ou nos meios intelectuais. Esse sorriso contagioso conquista os turistas, que também sorriem – mas não com ironia – ao presenciarem a saudação tradicional do tailandês, o wei, que consiste em juntar as mãos à altura do peito ou da face.
O nível geral de vida na Tailândia é um dos mais elevados da Ásia: o segundo depois do Japão. Noventa porcento dos tailandeses são proprietários. O comércio externo ainda até há poucos anos estava, na sua maioria, em mãos dos chineses; mas os progressos da economia tailandesa fizeram deslocar a situação: actualmente o comércio em geral é dirigido por tailandeses, que se apossaram da maior parte de todos os meios económicos. Aliás, a economia tailandesa continua a depender, em grande parte, do arroz ( e que excelente arroz !). Porém, a industrialização faz-se lentamente. Predomina ainda a agricultura tradicional. As planícies são férteis e a água cobre de tal modo este território – onde vivem 25 milhões de pessoas – que uma grande parte da sua população habita em barcos ou nas margens dos rios e dos canais. Mas não é o arroz a única riqueza que o solo fornece: há a borracha, o estanho, as madeiras...
Pareceu-me que também é verdadeira a afirmação que se faz a respeito deste país; que a gente da Tailândia é em geral indolente, que trabalha pouco, que se contenta com pouco... Talvez o calor, o extraordinário calor, explique a pouca aptidão para o trabalho, em grande parte do dia. Nesse mês de Novembro [de 1966] em que estive na Tailândia, senti o máximo calor da minha viagem ao Extremo-Oriente, mas, muito mais do que o calor que tinha sentido noutras paragens caracteristicamente muito quentes onde tinha estado: por exemplo, a selva amazónica, a África equatorial, ou – com respeito à Europa – esse calor de intensidade tropical que se sente em meses de Julho e Agosto na Escandinávia (...).
O extraordinário calor que sofremos durante os quatro dias em que estivemos na cidade de Bangkok obrigou-nos a permanecermos algumas horas no hotel, aliás magnífico, com ar condicionado e excelentes piscinas, um hotel de arquitectura ultra-moderna, cuja planta é do grande Le Corbusier – em estilo ainda mais avançado, digamos, do que muitos dos mais ousados edifícios que vi em Brasília.
Surpreenderam-me alguns aspectos de Bangkok: os belíssimos e ricos monumentos, a intensa religiosidade do povo tailandês (em contraste com o Japão também budista) e o emaranhado burburinho, estoante de vida – desmentindo a reclamada indolência deste povo – que se contempla nas regiões dos canais, em cujas águas se amontoam milhares e milhares de casas flutuantes, onde reside imensa multidão e sulcam numerosos barcos ou se faz intenso comércio de muitas coisas de variadas latitudes.
Uma grande parte do nosso tempo na Tailândia gastámo-lo a visitar templos e outros monumentos na capital, guiados por amáveis e solícitos cicerones.
Visitámos vários templos budistas; em muitos deles numerosos fiéis rezavam com fervor. Já anotei que nesse aspecto a Tailândia se apresenta muito diferente do Japão. Em geral, os templos budistas japoneses são pouco frequentados; para os habitantes do país nipónico, Buda não é propriamente um Deus, mas o inspirador – sem dúvida venerado – de uma escola de moral que, em muitos aspectos, se assemelha ao cristianismo. Não só o interesse pelo budismo e o fervor religioso são muito mais intensos na Tailândia, mas neste país encontram-se monumentos religiosos mais belos e sumptuosos. (...)
Cardia, Mário. A Ásia em paz: medicina, povos, paisagens (crónicas de viagem). Porto: Edições Sopime, 1969.
(Recolha de textos por Miguel Castelo Branco)
< VOLTAR | |