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José da Câmara Leme (1927 - )

Bangkok, uma cidade à beira da guerra

“Cheguei a 16 de Março de 1968, um sábado, a Bangkok. Tinha como missão ser correspondente de guerra no Vietname. Seria obrigado, porém, a permanecer na cidade perto de uma semana, o tempo indispensável para conseguir o difícil visto de entrada. Além disso, vinha credenciado para uma actriz de variedades, uma tal S.M., filha de português e de asiática, que talvez ainda actuasse em determinado cabaret, o Star Light. Apresentar-lhe-ia o cartão de um amigo comum – o já referido Sebastião Castello Branco, afinal um “amigo da onça”, na sua qualidade de grande responsável pelo meu ulterior engajamento na Legião Estrangeira Francesa e pela minha recente estada no Vietname... E, para que não lhe ficassem dúvidas sobre a legitimidade da apresentação, cantar-lhe-ia ao ouvido: “Cuando calienta el sol...”
Claro que o processo, a cheirar a novela de espionagem, e, ainda por cima, localizado no Oriente, me divertia. Contudo, considerando que eu não levava quaisquer contactos para Saigão (nem para Hanói) e que M.S. estaria em condições de mos fornecer, compreende-se que eu tudo fizesse para a encontrar.
Entretanto, durante a tarde, certificar-me-ia da gigantesca e tentacular presença americana em Bangkok, ora fardada, ora à paisana, presença que certamente se ramificaria por essa Tailândia fora. Confirmava-se-me o que todo o mundo sabia: os Estados Unidos utilizavam este país como uma plataforma para a guerra em que estavam empenhados no Sudeste-Asiático.
Às nove horas o cabaret abriu. Conheci dezenas e dezenas de cabarets, mas jamais um tão lusco-fusco como aquele. Ao entrar, pensei que só um morcego se sentiria à vontade naquelas condições.
Consegui finalmente sentar-me a uma mesa. Como era inevitável, como seria inevitável em qualquer outra grande cidade “ocidentalizada” do Oriente, logo me propuseram, solícitos, uma bebida e uma rapariga. Recusei a rapariga, pedi um whisky e perguntei pela M.S.
Lamentaram, com vénias, que a M.S. já tivesse partido há bastante tempo, e confidenciaram-me que estaria em Hong-Kong, que era uma imensa e perpétua saudade, uma artista admirável e uma senhora (sim, uma senhora !), mas eles, compreensivos, generosos, para suavizarem a minha mágoa, dispinham de uma rapariga de idêntico nível social, capaz de substituir a M.S. sem qualquer desvantagem...
- E fala francês ? – perguntei, quase certo de que a taxi-girl de Bangkok a falar francês seria vietnamita, quando muito laociana ou cambojana, muito improvavelmente tailandesa. De facto, a Tailândia nunca este sob o domínio colonial da França, como o Vietname, o Laos e o Camboja.
Breve foi a hesitação. Logo os meus amáveis servidores me aplacaram o que eles pareciam considerar como uma irreprimível necessidade:
- Amanhã, sim. Amanhã teremos para o senhor uma maravilhosa rapariga, que foi educada por padres franceses. Ela até lê e escreve francês, até tem “costumes franceses”...
Do mal o menos, e, depois, quem sabe ?
- O.K. Virei cá amanhã.
Despachei-os e comecei a olhar em volta. O cabaret, entretanto, enchera-se. De civis, é claro, mas sobretudo de militares. Explodia a festa. O álcool dançava nos homens ao ritmo, ora estridente, ora melodioso, da orquestra filipina. O que sse passava ali já não era apenas alegria, nem prazer, nem vício. Sentia-se o ambiente como que a incerteza do náufrago que se agarra a uma tábua que não lhe oferece qualquer possibilidade de salvação, mas que lhe retarda um fim inevitável e terrível. Não pude deixar de recordar os meus tempos de legionário francês, quando nas cidades argelinas vi e vivi atitudes semelhantes. Sem dúvida: Bangkok era uma cidade à beira da guerra. Com um misto de cansaço e tristeza, regressei ao hotel”

Leme, José da Câmara. Repórter no Vietname. Lisboa: Livraria Bertrand, 1970.

(Recolha de textos por Miguel Castelo Branco)

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