Fernão Mendes Pinto (1510?-1583)
Fernão Mendes Pinto foi uma das personalidades mais interessantes e irrequietas do império asiático português de meados do século XVI. Soldado, diplomata, mercador, missionário, nasceu em Montemor-o-Velho e embarcou, ainda jovem, para o Oriente, aí permanendo durante vinte e um anos, durante os quais visitou a costa leste africana, Goa, capital da Índia portuguesa, Malaca, bastião militar português e grande entreposto comercial, a Birmânia, o reino do Sião, a China e o Japão. Dizem os seus biógrafos que era um homem generoso, extremamente inteligente, compreensivo e corajoso.
Tendo conseguido acumular uma apreciável fortuna, decidiu regressar a Portugal em 1551, deslocando-se de Macau a Goa para esperar por uma armada que o trouxesse de volta à Europa. Em Goa, a "Roma do Oriente", foi tomado de grande misticismo, oferecendo grande parte dos seus bens à Companhia de Jesus e aceitando o cargo de embaixador do rei de Portugal no Japão. A sua fé, contudo, parece tê-lo abandonado pelo que em 1557 decidiu regressar de vez a Lisboa. Chegado a Portugal, já famoso pelas suas Cartas que se traduziam por toda a Europa, resolveu deixar o testemunho das suas viagens e aventuras pela Ásia. Morreu em 1584, perto de Lisboa e a sua grande obra literária - Peregrinação - só seria editada trinta anos após a sua morte.
É, ainda hoje, um texto fundamental para conhecer a sensibilidade e a visão que do Oriente tinham os portugueses da segunda metade do século XVI. Constitui uma fonte quase inesgotável sobre a geografia e os acontecimentos dos estados por ele visitados. Fernão Mendes Pinto estará para o século XVI como Marco Polo para o século XIII. O seu relato foi tão espantoso e inverosímil para os seus contemporâneos, que muitos se recusaram a acreditar no que escrevera. Mendes Pinto terá visitado o Sião em duas ocasiões distintas, entre 1543 3 1547, aí permanecendo por tempo indeterminado. Impressionado pelo poder, riqueza e exotismo do país, deixou testemunho que transcrevemos em dois textos retirados, nomeadamente das suas Cartas e da Peregrinação.
Ayuthia em meados do século XVI
Malaca, 5 de Dezembro de 1554
(...) " Estive por duas vezes no Sião, tendo visitado Ayuthia, capital desse reino. Posso dizer-vos que é a maior cidade da região. Esta cidade é como Veneza, pois ali, em vez de ruas, há canais por onde circulam duzentas mil embarcações, pequenas e grandes. Se são ou não duzentas mil não vos posso dizer, mas a verdade é que estive retido no rio ao longo de uma légua (1) sem poder avançar, tantos eram os barcos que o enchiam.
Ao seu rei chamam Phra Chao Chang Pheuak, que quer dizer filho de Deus. No seu palácio não entra nenhum estrangeiro, para além dos embaixadores ou dos seus vassalos. No exterior, as paredes são revestidas de cobre e no interior a ouro. Senta-se o soberano num trono muito rico, em torno do qual há belos estrados onde vão dançando raparigas filhas dos grandes senhores do reino. O rei sai do seu palácio duas vezes por ano para ser visto pelo seu povo, na companhia de uma grande comitiva constituída pelos altos funcionários e oficiais montados em mais de duzentos elefantes. A pé, seguem-nos cinco ou seis mil soldados da guarda real. Neste desfile destacam-se doze elefantes ricamente adornados, onde se sentam, em cadeiras revestidas a ouro, as mulheres do monarca, bem como as principais senhoras do reino. A abrir a procissão, artistas e dançarinos fazem todo o tipo de jogos e malabarismos. O rei participa neste brilhante espectáculo sentado num cadeirão ricamente adornado colocado sobre o seu elefante. O animal é comandado por um pajem do rei empunhando na mão esquerda um bastão de ouro. Do lado direito, pende uma bolsa repleta de dinheiro, que vai lançando como esmola sobre a multidão.
Vi também o rei a bordo do seu barco, mais comprido que uma das nossas galés (2). Os remos são revestidos a folha de ouro e o balcão é ricamente decorado. Acompanham-no outros doze navios nos quais se destacam doze ricas cadeiras vazias. Quando alguém se aproxima de um desses barcos, faz uma vénia, como se neles fosse o próprio rei. Atrás, seguem outras cento e vinte vistosas embarcações pertencentes aos grandes senhores do reino.
Estas distinguem-se umas das outras pelos fardamentos e emblemas dos seus proprietários.
Este rei chama-se o Senhor do Elefante Branco, que é o título de maior prestígio que nesta região se pode chamar a um homem. Um dia vi um destes elefantes brancos a ser lavado no rio. Era precedido por cento e sessenta cavaleiros e outros oitenta e três elefantes comuns, sobre os quais iam capitães e grandes senhores da corte acomodados em ricas cadeiras. O elefante branco era cercado por por vinte e quatro sombrinhas brancas, para lhe dar sombra, e guardado por três mil homens armados. Sobre o animal estava montada um trono revestido a ouro e umas cadeiras de prata amarradas ao seu dorso e pescoço por correias de prata. Disseram-me que desta vez saía de branco porque se ia lavar, mas que em ocasiões especiais levava adereços em ouro. Na tromba, levava um globo celeste em ouro, do tamanho de duas cabeças humanas. Para a cerimónia do banho haviam-lhe preparado um estrado junto do leito do rio, para que ele aí entrasse. Não pude assistir ao banho do elefante branco. Pelas ruas por onde passa concentra-se uma tão grande multidão e a decoração é tão rica como em Portugal nos dias de festa do nosso rei. Os outros elefantes não se podem dele aproximar nem tão pouco cruzar no seu caminho. Quando urina, põem-lhe debaixo uma bacia de ouro para depois com ela lavarem o rosto os principais senhores da corte.
O rei da Birmânia quis entrar no Sião e intitular-se Rei do Elefante Branco. Partiu de Pegu, a mais de setecentos quilómetros, com um exército de trezentos mil soldados para conquistar o Sião mas, chegado à capital, aí não conseguiu entrar. Dizem que matou ou transformou em escravos mais de duzentas mil pessoas antes de se retirar.
Faz agora três anos [1551] que este elefante morreu, deixando o rei tão triste que lhe mandou fazer um funeral em que, disseram-me alguns mercadores, se gastaram 3125 kilogramas de prata. As cerimónias fúnebres duraram um mês, durante o qual muito incenso se queimou em homenagem à sua alma. Entretanto, foi encontrado um outro elefante branco perto de Tanesserim, enchendo de júbilo o rei que o tem agora junto de si como outrora tivera o velho elefante.
O povo desta terra tem por deuses os quatro elementos: terra, água, fogo e ar. Quando alguém morre, se acreditava na água, deitam-no nu ao rio, se acreditava no fogo, queimam-no numa fogueira grande, se acreditava na terra, enterram-no e se acreditava no ar, colocam-no num local para ser comido pelos abutres. E contudo, meus irmãos, há já sete templos e 30.000 famílias muçulmanas na capital do Sião, dirigidas por líderes espirituais turcos e árabes. Isto é uma vergonha para nós, cristãos, pois não temos o mesmo empenho que os seguidores de Maomé e do Alcorão. O rei do Sião deixa cada um seguir a religião que bem quiser, pois, diz, não é senhor das almas mas dos corpos dos seus súbditos.
No fim do Inverno, o rei sai em procissão para se lavar no rio. A água com que o rei lava os pés é recolhida com a maior veneração pelos grandes senhores para as suas casas. Estando eu no Sião, assisti a um eclipse da lua, por volta da uma hora da madrugada. Acredita aquela gente que uma cobra engole a lua. Dispararam-se tiros de espingardas para o céu, fecharam-se as portas das casas com grande estrondo e as pessoas gritaram tão alto pedindo à terra que não engolisse a lua que nós, os portugueses que estávamos na cidade, ficámos assustados com tal alarido.
O rei do Sião não recebe quaisquer embaixadas estrangeiras se estas não o presentearem com duas pequenas árvores, uma de prata, outra de ouro, em sinal de reconhecimento. Em troca, o monarca oferece a cada embaixador um barrete bordado a ouro e uma miniatura em forma de barco contendo incenso. Contudo, o rei do Sião é vassalo do rei da China, enviando-lhe todos os anos uma embaixada. (...)".
(1) Légua antiga: 4827 metros
(2) Galé: navio a remos utilizado no Mediterrâneo desde a Antiguidade
PINTO, Fernão Mendes. [Carta do irmão Fernão Mendes aos padres e irmãos da Companhia de Jesus em Portugal](in Francisco Alvarez, História de las cosas de Ethiópia, 2ª ed. Saragoça: Agostin Millan, 1561, folhas 181-186).
(Recolha de textos por Miguel Castelo Branco)
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