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Sião de finais do século XVIII num manual de geografia português

O texto que agora apresentamos é eloquente testemunho da desinformação existente no Ocidente sobre o Sião em finais do século XVIII. Publicado quase vinte e três anos após a tomada, saque e incêndio de Aythia, continuava, porém, a dá-la como capital do Sião. Trata-se, sem dúvida, de uma obra repetidamente impressa, mas expressa o corte de contactos que se deu entre o desastre de 1767 e a fundação de Banguecoque.

Do Reino de Sião
Pergunta – Qual é a extensão deste reino, com quem faz fronteiras e quais são as suas produções ?
Resposta – Este reino, a que os seus habitantes chamam na sua língua Menang-Tai, isto é, País dos Livres, e a quem os portugueses deram o nome de Sião, confina a norte com o Laos, pelo sul com o Golfo do Sião, pelo sudoeste com a Península de Malaca, pelo oriente com os reinos do Cambodja e Laos. Tem quase duzentas e vinte léguas de comprimento de norte a sul e cem léguas na sua maior largura. O seu território é fertilíssimo em arroz, frutas e algodão. Tem espécies de animais todos diferentes dos que se criam na Europa.
Pergunta – Qual é o carácter dos seus naturais ?
Resposta – Os seus naturais são semelhantes aos chineses: são espirituosos, sóbrios, mas preguiçosos. A sua religião é simples; porém, admitem a transmigração das almas.
Pergunta – Qual é o seu governo ?
Resposta – O seu rei é despótico e os seus vassalos contemplam-no como a um Deus. Enviou embaixadores a Luís XIV e deste os recebeu também em 1685.
Pergunta – Qual é a sua capital ?
Resposta – A capital deste reino chama-se Sião, ou Ayuthia. É uma grande e bela cidade edificada numa ilha formada pelo rio Menam, que algumas léguas depois desagua no Golfo do Sião. Este rio está cheio de grandes crocodilos, que devoram os homens quando os encontram sós e desarmados. Nos arrabaldes desta cidade há religiosos dominicanos e agostinhos e também houve jesuítas. Na cidade há grande número de pagodes. Entre outros, é admirável o pagode que há no palácio do rei, ao qual se chega depois de atravessar nove pátios. Este encontra-se coberto de um metal muito branco. A figura do edifício é muito semelhante à das nossas igrejas. É sustentado por colunas douradas, como o são também as paredes, tectos e figuras. O ídolo que está no fundo do templo tem quarenta e cinco pés de altura e sete de largura e é dourado com tal arte que parece todo de ouro. Perto deste pagode há um outro, cujo edifício é ainda mais soberbo, construído em forma de cruz e com cinco zimbórios sólidos e dourados. As salas e quartos do palácio do rei e da rainha encerram riquezas imensas. O rei possui grandes quantidades de elefantes: o que chamam real é alimentado em bandejas de ouro e é de cor branca. Contam-se nesta cidade seiscentas mil almas. O seu comércio é extraordinário e a ela acorrem mercadores de todas as partes. A feitoria dos holandeses é magnífica.
Pergunta – Que cidades notáveis há neste reino ?
Resposta – Luvo [Lopburi], situada a nordeste de Aythia, é uma grande cidade e populosa cidade desde que o rei passou a ter uma residência no fim do último século. Tem ali um palácio com um jardim delicioso. (...)”

Geografia moderna precedida de hum pequeno tratado da esféra e globo terrestre (...). Lisboa: Francisco Luís Ameno, 1790. Tomo 7: contém a continuação da Ásia e a África, p. 59-63.

(Recolha de textos por Miguel Castelo Branco)

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