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Os irmãos siameses numa revista portuguesa de 1840

“De todos os fenómenos conhecidos até aos nossos dias da aberração das leis da natureza na produção dos entes, este é, sem dúvida, um dos mais notáveis e interessantes. E, quem, na verdade, deixará de maravilhar-se e ficar tomado de espanto contemplando dois indivíduos distintos e completos cada um pela sua parte, e todavia reunidos, desde o ventre da sua mãe, por uma ligação indissolúvel? Estes dois irmãos nasceram, cresceram e vivem juntos numa sociedade forçada e, não obstante, mostram tanta alegria e satisfação como gozassem da mais perfeita liberdade. Por toda a parte onde têm aparecido na Ásia, na América e na Europa foram objecto de uma viva e geral curiosidade [do público], bem como das observações e estudos dos sábios.
(...) Eng e Chang (assim se chamam estes dois gémeos, Eng o da direita, Chang o da esquerda) nasceram em 1811 numa pequena aldeia das costas do reino do Sião. Diz-se que a sua mãe, quando os deu à luz, não sofreu maiores incómodos que os um parto normal. O seu pai, de raça chinesa, era um pobre pescador, e eles mesmos, desde pequenos, ganharam a vida vendendo peixe, marisco ou azeite de coco até que que o capitão de um navio americano os induziu, em 1829, a acompanharem-no aos Estados Unidos. Sete anos levaram a viajar neste país e na Inglaterra para satisfazer a curiosidade pública, e em 1836 apareceram em França. Eis aqui a descrição que deles fez um dos sábios que os examinou:
“os dois gémeos estão unidos pela parte inferior do peito, por meio de um prolongamento de carne da largura de um braço. Este prolongamento, segundo parece, é formado interiormente pela dilatação da xifoide. (...). É esta cartilagem que, tendo-se dilatado de um e outro lado, se uniu e soldou os dois gémeos. Diz-se que eles nasceram desencontrados, isto é, cabeça com pés e estreitamente unidos. Mas à força de puxar cada um para seu lado, foi estendendo o ligamento comum a ponto de se poderem ambos endireitar e ficarem a par um do outro. É esta presentemente a sua posição habitual, conservando cada um o braço exterior livre e desembaraçado e abraçando-se mutuamente pelas costas com os braços interiores (...).
Chang e Eng (...) andam como um só homem, sentam-se, levantam-se, nadam e comem com a mesma agilidade e espontaneidade nos movimentos, como se uma só vontade dirigisse todos os actos da sua vida. Ainda mais, têm os mesmos gostos, sentem os mesmos desejos, as mesmas necessidades ao mesmo tempo. Nunca um viu dormir o outro: adormecem e acordam juntos, como se fossem um só indivíduo. Basta tocar num para que ambos despertem. Nunca falam um com o outro e entendem-se perfeitamente (...). Parece terem-se esquecido completamente da sua língua natal, depois de 18 anos fora do seu país. Aprendem, porém, as línguas estrangeiras com extrema facilidade e depois de poucos meses na Inglaterra ou em França falavam o inglês e o francês muito correctamente.
(...) Usam os cabelos entrançados e presos ao alto, à moda do seu país; porém, vestem já à europeia. (...)

Os dois gemeos siamezes (In: O Archivo Popular: semanario pintoresco). – Lisboa. – N. 38 (19 de Set. 1840), p. 297-298; il.

(Recolha de textos por Miguel Castelo Branco)

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