Ligações
Homepage
Quem Somos Menú Agenda Cultural Portugal e o Sião Contactos e Reservas

Alberto Morais de Carvalho

Oficial de cavalaria, partiu para a Índia em 1870, passando depois à China em 1872, na qualidade de ajudante de campo do Visconde de S. Januário, governador de Macau e ministro plenipotenciário na China, Japão e Sião. Regressou a Portugal em 1875 para, anos volvidos, regressar ao Oriente como governador de Damão. Foi na Índia que pela primeira vez se encontrou com o rei Rama V, então um jovem de 22 anos, em viagem de estudo pela Índia britânica.

Encontro com o jovem Chulalongkorn na Índia

“Antes, porém, de partirmos para a China, fomos convidados pelo governador de Bombaim para irmos esperar o rei do Sião, que ali chegava, e para o jantar oficial e outras festas da ocasião.
O rei era um rapaz de 22 anos, simpático, apresentando-se distintamente com a sua corte, sem o menor constrangimento e, pelo contrário, com a majestade de qualquer outro rei civilizado. Sabia falar bem o inglês mas não gostava, e só o falava quando não podia deixar de ser”.

Uma festa oferecida por Rama V aos diplomatas portugueses

“A entrada em Sião fez-se pelo rio Menam, cujas margens são lindíssimas, pelos pagodes que a miúdo se vêem.
Quando passámos do mar para este magnífico rio, deu-se um caso curiosíssimo: ouviam-se distintamente sons de clarins, e achando eu o caso muito extraordinário, perguntei ao comandante do vapor o que era aquilo, dizendo-me este que havia naquele reino uns peixes chamado trombetas os quais se fixavam no costado do barco e iam fazendo aqueles toques que eram perfeitamente de clarins. Em pouco tempo fundeámos em Banguecoque (capitão do Sião) e apareceu-nos logo o nosso cônsul ali, o Sr. Fideles da Costa, que nos deu a desagradável notícia que havia um conflito grave entre o 1º e o 2º rei, quer dizer, entre dizer, entre o chefe do Estado e o da religião. Como em Banguecoque não houvesse naquela ocasião nenhum [embaixador] estrangeiro, começou logo o Visconde de S. Januário por harmonizar os dois monarcas, devido ao seu grande tacto diplomático, entrando tudo na mais completa ordem. Chama-se a isto entrar numa terra com o pé direito.
Banguecoque é uma pitoresca cidade fundada em estacaria nas águas do grande rio Menam. O movimento de barcos de diferentes feitios e mais ou menos ricos era enorme. A esta cidade pode bem chamar-se a Veneza do Oriente.
O palácio real é grandioso e encerra riqueza incalculável em ouro, pratas, pedras preciosas, bronzes, móveis e estofos de grande valor. Muito próximo do palácio fica o grande harém, onde entrava só o rei, que tendo apenas 24 anos, era já pai de trezentos e tantos filhos, o que não achei demasiado, atendendo que o número de meninas ali internadas era de quatrocentas, pouco mais ou menos.
Na capela real há dois ídolos ou estátuas de Buda em ouro maciço de tamanho natural, e um outro, o célebre Buda de Esmeralda, que é feito de uma só esmeralda e tem cinquenta centímetros de comprido. Os ingleses avaliam este ídolo em 200.000 dólares, ou sejam duzentos contos de reis. Os pagodes reais são de uma magnificência de que se não pode fazer ideia na Europa e custaram rios de dinheiro. No pagode Chetuphon vi um Buda deitado, que tinha cinquenta metros de comprimento e era todo revestido por uma chapa de ouro que teria a espessura de uma moeda de dez reis.
Um outro pagode que me mereceu também muita atenção foi o Wat-Chang, que está situado na margem direita do Menam e dá nas vistas pela sua elegante torre de 200 pés de altura: é o primeiro indício da capital, quando se entra o rio; logo depois aparece a cidade de Banguecoque.
Durante os dias que ali permanecemos fomos convidados para vários jantares em casa dos diferentes estrangeiros, mas o mais importante, a grande festa, foi no dia em que foram entregues a S.M. El-Rei as credenciais, na esplêndida sala do trono, onde compareceu todo o governo, a casa militar do rei, autoridades superiores, civis e militares, os embaixadores estrangeiros, etc.
Fora, em frente do palácio, estava uma bem posta guarda de honra e 60 elefantes formados em duas fileiras, ricamente ajaezados, o que produzia um belo e curioso efeito. Terminada a cerimónia, fomos descansar e à noite continuou a festa com um esplêndido jantar dado pelo rei, sem dúvida o mais rico e fantástico a que assistimos em todo o Oriente por nós conhecido.
A casa de jantar era riquíssima de móveis e enormes espelhos. A baixela que nos serviu à mesa era de ouro, feita em Inglaterra e, segundo fui informado pelo nosso cônsul, Sr. Marques Pereira, tinha custado a bagatela de cinquenta mil libras. Era lindíssima em todo o sentido. Havia também uma outra baixela siamesa de grande valor artístico, feita de ouro vermelho, a qual estava disposta em volta da sala, sobre magníficos aparadores. Eram ambas riquíssimas, sendo por nós mais admirada a siamesa.
Quando entrámos no palácio para o jantar, estava no primeiro pátio um bem posto esquadrão de cavalaria e passando ao segundo [pátio], dando a direita à entrada do palácio, um batalhão de infantaria da Guarda Real com a sua banda, que quando o ministro e nós passávamos em frente, tocou o nosso hino nacional, que nos surpreendeu e impressionou tanto que as lágrimas apareceram nos nossos olhos. Entrados no palácio, cessou de tocar a banda da guarda de honra e começamos a ouvir no interior do palácio uma outra música de sons completamente novos para os nossos ouvidos, e de tal modo extraordinárias aquelas orientais harmonias, que o nosso companheiro e distinto músico amador, Pedro Mesnier, ficou de tal modo impressionado, que ao jantar, sendo ele um razoável gastrónomo, nada comia, intrigado a pensar que qualidade de instrumentos seriam aqueles !...
O Rei, notando que Mesnier não comia e estava pensativo, disse ao ministro S. Januário: “então o seu secretário não come ? Está incomodado ?” O ministro respondeu a Sua Majestade: “ eu calculo que ele está, como grande músico que é, muito preocupado com a música que ouviu ao entrar aqui”.
Em vista disto, o rei chamou um dos seus palacianos, que estava à mesa, o qual veio respeitosamente, corcovado, quase de cócoras, falar-lhe, e disse-lhe que mandasse vir ali à sala algumas das melhores executantes da sua banda de mulheres, ordenando-lhes que tocassem durante o jantar para satisfazer a curiosidade de Mesnier e de todos nós que também estávamos desejosos de as ver e ouvir. Eram raparigas muito novas, vestidas à oriental e com belos solitários de brilhantes nas orelhas. Formaram um quarteto admirável com instrumentos de formato por todos nós nunca vistos e que produziam sons harmoniosíssimos. Assim se passou perfeitamente todo o tempo do belo jantar, que era bem servido, à inglesa, com vinhos de diversas qualidades, muito bons, e que foram devidamente apreciados por mim, apesar da curiosa música de tais artistas que, parece, me abriram o apetite (...).
A rainha não estava e também não havia senhoras, o que faltava para ser completo aquele festim real. Findo o jantar, às nove horas da noite, fomos para a sala de fumar e o rei para o seu gabinete com o nosso ministro, a quem presenteou com um rico e lindo serviço de chá em ouro vermelho, e a nós mandou-nos chamar para nos dar umas caixas de prata esmaltada com os seus retratos dentro, sendo um à militar e outro à paisana, de casaca.
Seriam dez e meia quando saímos do palácio, satisfeitos pela maneira amável como fomos recebidos e gratos às recordações oferecidas pelo rei, lembranças que conservo com saudades daquele tempo feliz.
Esquecia-me de dizer que os ministros estavam com ricas fardas de seda forte, com botões de magníficos brilhantes, com que eu desejava abotoar-me para vender por um bom preço na Europa, onde os pagariam bem, servindo esse dinheiro para se gozar a vida de um modo melhor e mais útil do que a toleima de os usar.
Passados dois dias tivemos ainda uma importante festa, em que houve teatro siamês várias distracções características daquele curioso e belo país. Esta brilhante recepção foi-nos oferecida pelo príncipe Samerchai, primo do rei.”

CARVALHO, Alberto de Morais de. Reminiscências do Oriente: apontamentos de viagem/ Alberto Moraes de Carvalho. – Lisboa: Tipografia de Cooperativa Militar, 1914.

(Recolha de textos por Miguel Castelo Branco)

< VOLTAR |

Imprensa Ligações