Eça de Queirós (1845-1900)
José Maria Eça de Queirós foi um dos grandes romancistas portugueses do século XIX. A sua obra, plena de força, graça e ironia, continua hoje, mais de cem anos após a sua morte, a reunir o aplauso de gerações de fiéis leitores. Introdutor em Portugal do realismo em literatura, a sua obra ficcional como jornalística.
O Sião imaginário na pena de um romancista
“A França começou enfiam a devorar o Sião. Este ingénuo, amável e polido povo recebeu, há quatro ou cinco dias, um ultimato em que era intimado a entregar, sem demora, à França uma imensa porção do seu território e uma não pequena porção do seu dinheiro. Segundo a prudente maneira dos Orientais, o Sião nem consentiu, nem recusou. Com aquela mansidão e humildade que tão própria é de budistas e fatalistas, replicou que não compreendia bem as exigências da França, que apetecia a paz, e que por amor dela estava disposto a dar algum dinheiro, mas não tanto, e a abandonar algum território, mas não tão vasto. Outrora, quando os costumes internacionais eram mais doces e complacentes, e os povos orientais gozavam ainda de uma feliz reputação de lealdade, esta discreta resposta teria dado motivo a novas negociações, novos telegramas, infindáveis cavaqueiras de embaixadores.
Hoje, as maneiras internacionais são mais bruscas e rudes: os países do Oriente têm uma deplorável fama de duplicidade e falsidade e a França, sem se deter em mais exoplicações com o infeliz Sião, bloqueou-lhe as costas e fez marchar sobre as províncias do interior as suas tropas coloniais da Cochinchina.
Perante estes actos, tão decididos, o furor dos ingleses tem sido medonho. Mas é um furor unicamente de políticos, de jornalistas e de comerciantes que tinham negócios com o Sião. O povo, a massa do povo, permanece indiferente. Não tem sentimento nenhum pelo Sião, não acredita que ele seja indispensável à felicidade da Inglaterra, não percebe porque a Inglaterra cobice ainda mais terras no Oriente, e vê a França cair sobre o Sião sem que isso lhe irrite o patriotismo ou lhe torne amarga a cerveja. Ora, em Inglaterra, que é uma verdadeira democracia, quando o povo se desinteressa de uma questão, os políticos e os jornalistas também têm de a abandonar, porque aí não se criam artificialmente correntes de opinião e o governo que provocasse um conflito europeu sem se apoiar num forte entusiasmo popular não duraria mais que as rosas de Malherbe, que, como todos sabem, duram apenas o espaço de uma manhã.
Não !, não há hoje já a possibilidade que duas nações europeias se batam por causa de terras coloniais. Os europeus só se movem por interesses ou sentimentos europeus, e só por eles arrancam a espada.
Para as questões coloniais lá estão os congressos e os tribunais de arbitragem. E uma senhora que ultimamente, num salão, considerava como a coisa mais pueril e mais grotesca que duas nações tão elegantes como a França e a Inglaterra se batessem por causa de bichos tão feios como os siameses – estabelecia, sem o saber, a verdadeira doutrina do século. Quando a França e a Inglaterra não vieram às mãos por causa do Egipto, a terra entre todas preciosa pela qual se têm dilacerado todos os povos desde o Dilúvio – não há receio que jamais duas nações da Europa quebrem a doce paz por causa de interesses orientais.
De sorte que todas as declarações dos jornais sobre a guerra são um mero desabafo de retórica heróica. E como não há o menor perigo ( e eles perfeitamente sabem) de se chegar à boa cutilada, não é desagradável, nestes ociosos dias de verão, roncar de alto, com o sobrolho franzido e a mão nos copos do sabre. Assim se vai gastando, com arreganho, alguma tinta – sem medo que se venha a gastar sangue.
(...) Eu tenho um amigo que esteve nesse pobre Sião, hospedado pelo rei, no palácio, e conta com detalhes bem pitorescos. Todo o reino do Sião pertence ao rei, tão completamente como aí [no Brasil] uma fazenda de café pertence ao fazendeiro. O rei é dono do solo, dos edifícios, dos habitantes e da riqueza dos habitantes. Pode, querendo, doar, hipotecar, trocar ou vender o reino com tudo o que está dentro das fronteiras.
É uma posse agradável. O povo, por seu lado, considera o rei não só como seu dono, mas como seu deus. E a fórmula religiosa (como se disséssemos o artigo da constituição) que define bem as relações e os deveres entre o povo e rei é esta: “do rei o povo recebe a vida, o movimento e o ser”.
O rei tem um nome imenso, chama-se Prabat-Tomedetch-Pra-Parammdir, etc, etc, etc. Todo ele não caberia em cinquenta linhas. E cada vez que se fala ao rei (só os nobres gozam esse privilégio) é da etiqueta invocá-lo com o nome todo.
Uma conversa com sua magestade dura assim longas e longas horas, por causa do seu nome. De facto, a mais laboriosa e pesada ocupação da corte, é pronunciar o nome de el-rei.
Pessoalmente o rei é um homem excelente, cultivado, afável, gracejador, bondoso. É mesmo bonito, para siamês. E as suas maneiras têm nobreza. O que o estraga é o seu imenso poder, a sua posição de divindade e a prodigiosa, inverosímil adulação que o cerca. Assim é uma regra (e cumprida com fervor) que todo o siamês que tenha uma filha bonita a dê de presente ao rei. As suas concubinas oficiais excedem em número as de Salomão. São aos milhares. E o rei, apesar de novo, de não contar ainda quarenta anos, já tem cento e oitenta filhos ! Tudo isso, esposas e filhos, vive no palácio, que oferece as proporções de uma vasta cidade. Há ruas inteiras de esposas. Há bairros inteiros de filhos ! Toda esta imensa família vive num luxo imenso, e o rei, apesar de dispor de todas as riquezas do Sião como suas, está horrivelmente endividado em Londres. Às vezes, porém, ele próprio procura fazer economias: e foi assim que, no momento em que o meu amigo estava no Sião, el-rei deu ordens para que, por economia, se não ferrassem mais os cavalos da cavalaria. Havia cem cavaleiros, eram cem ferraduras poupadas. Eis aqui um traço bem siamês !
O rei nunca sai do palácio, não conhece o seu reino, mal conhece a sua capital, Banguecoque. Quando por acaso dá um passeio, é uma grande festa, uma grande gala. As ruas são aplainadas e areadas: pintam-se as casas de fresco; os canais (porque Banguecoque assemelha-se a Veneza) levam uma rápida limpeza: toda a população se lava, se alinda, se cobre de jóias; e para que não chova, celebram-se preces nos templos. Depois o rei recolhe, e por muitos e muitos meses Banguecoque recai no usual desleixo e porcaria. Só no palácio há asseio. De resto, o palácio é que é a nação. (...)”.
Queirós, José Maria Eça de. Echos de Paris. Porto : Livr. Chardron, 1905
Portugal solidário com o Sião ante o ultimato francês (1893)
“(...) Esta teoria é extraordinária e só para ser usada com as nações pequenas ou fracas, o que bem mostra que, apesar de todos os progressos da civilização, o direito da força ainda prevalece contra todas as razões.
A França resolveu imediatamente estabelecer o bloqueio da costa do Sião e preparar-se para fazer um desembarque se tanto fosse preciso. A Inglaterra, apesar de não ver com bons olhos este procedimento da França, contrário aos interesses ingleses, conservou-se na expectativa e a imprensa inglesa não deixou de apoiar a França, dizendo que devia prosseguir naquela linha de conduta. São admiráveis estes ingleses.
Além do bloqueio, a França formulou imediatamente um ultimato que enviou ao seu representante em Banguecoque para o apresentar ao governo de Sião, e que é o seguinte:
1.º Reconhecimento dos direitos do Anam e Cambodja sobre a margem esquerda do rio Mékong e sobre as ilhas,
2.º Evacuação em um mês dos fortes ocupados pelos siameses sobre aquela margem.
3.º Satisfação para as diversas agressões contra os navios e os marinheiros franceses no Menam.
4.º Castigo dos culpados e indemnizações pecuniárias às famílias das vítimas.
5.º Indemnização de dois milhões de francos a título de perdas e danos infligidos a nacionais franceses.
6.º Depósito imediato de três milhões de francos em piastras para a execução dos artigos 4º e 5º, ou como alternativa, a percepção dos rendimentos das províncias de Battambun e Anakou.
Contra a força não há resistência e o governo do Sião teve de aceitar o ultimato, sujeitando-se a todas as imposições da França. Estava conseguido o fim, os meios pouco importava.
(...) A índole geral [do povo siamês] é boa e pacífica. O estado da sua civilização parece ter estacionado na idade média. O rei do Sião chama-se Sondrecht-Phra-Paramendr-Maha-Chulalongkorn. Nasceu a 21 de setembro de 1853 e subiu ao trono com 15 anos de idade, sendo o quinto rei da sua dinastia. O seu pai, o rei Mongkut, era um sábio e dirigiu a educação do filho auxiliado por uma professora inglesa. Entre os conselhos que deu ao seu herdeiro conta-se o seguinte: “ama os franceses, porque é um povo de grande valor, mas conserva-os sempre o mais afastados possível”.
Os últimos acontecimentos dão razão a Mongkut.
Na corte de Sião têm sempre ocupado altos cargos alguns europeus. Assim, já teve um general francês que era cozinheiro de um navio e se chamava Lamache. Actualmente o rei tem dois favoritos franceses, Mr. Rolim Jaquemyns, que é ministro dos negócios estrangeiros, e Armand du Plessis de Richelieu, que se inculca parente do grande cardeal.
Há no Sião um corpo militar de amazonas, composto de duzentas virgens, que são mais formosas que temíveis. O exército compõe-se de uns 12.000 homens com oficiais europeus. A sua marinha de guerra conta com duas corvetas de 2.000 toneladas, com oito bocas de fogo cada uma, um bergantim, três canhoneiras de primeira classe, quatro de segunda, dois iates, dois vapores e um cruzador.
Já se vê a grande desproporção que há entre a força armada de Sião e as imposições da França.”
In: Ocidente. – Lisboa. – Ano 16, n. 527 (11 de Agosto 1893), p. 179, 181-182.
(Recolha de textos por Miguel Castelo Branco)
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