Venceslau de Morais (1845-1929)
Descrição dos siameses (1883)
“Tendo uma superfície aproximada de oitocentos mil quilómetros quadrados, a sua população atinge quase sete milhões de habitantes, segundo alguns, posto que outros a avaliam em muito menos. É formada por uma mistura de chineses, malaios, anamitas, peguanos, etc; os siameses propriamente ditos talvez não formem metade da população, sendo a colónia mais numerosa a dos chineses, que representa aproximadamente um quinto dela.
Os usos e costumes dos siameses são muito singulares, oferecendo contrastes que não podem deixar de impressionar o pensador.
A infância forma o primeiro contraste com os adultos, porque as crianças são em geral bonitas, bem feitas, alegres e vivas, ao passo que, pelo desenvolvimento, o uso do betel, que mascam constantemente, lhes altera as feições, enegrecendo-lhes os dentes, dilatando-lhes a boca, engrossando-lhes os beiços.
As mulheres, com relação a feições, especialmente até aos 14 ou 16 anos, são relativamente suportáveis e as suas formas plásticas nada têm que invejar à mais perfeita estatuária.
Os homens, dotados de um cabelo espesso e duro, usam-no rapado, conservando apenas um topete no alta da cabeça. As mulheres possuem um cabelo macio, fino, abundante e cuidadosamente tratado, que também rapam desapiedadamente, prejudicando com isso o seu aspecto geral.
O vestuário, tanto de uns como de outras, consiste apenas num pedaço de pano de fazenda, que levantam pela parte posterior, prendendo-o na cinta pelos dois extremos. Dão-lhe indiferentemente o nome de panhe ou langotim, a que alude (...) um soneto de Bocage. As mulheres deitam, além disso, uma charpa ou banda de um ombro ao outro.
Indolentes ou preguiçosos, dedicam-se muito pouco ao trabalho, sendo os estrangeiros quem principalmente exploram o país e dele recolhem os produtos.
Os siameses chamam-se a si próprios Thai, isto é, homens livres, e contudo eles têm toda a humildade de um povo reduzido ao estado de servidão.
O homem de mais elevada posição está diante do rei de joelhos e com os cotovelos fincados em terra. Ninguém passa diante do palácio real sem se descobrir e fazer as mais profundas reverências; os próprios grandes senhores ou devem fechar o seu pára-sol ou ao menos incliná-lo para o lado oposto. Os numerosos barqueiros que passam pelo rio devem ajoelhar-se e descobrir-se até que passem por esse lugar sagrado, senão a guarda, sempre vigilante, irá punir com uma pedra despedida das suas bestas o imprudente que faltar a esse dever. Daí para baixo, o mesmo acto de submissão é praticado por cada inferior para com o seu superior.
Uma grande qualidade tem, porém, este povo: é o amor da família levado a um grau estimável. Se sucede um desastre qualquer ao pai, mãe, filho, irmão, primo, etc, toda a família acode com os seus serviços, com os seus subsídios para aliviar a doença, o infortúnio que aflige o parente. Se se faz festa a uma criança, o pai e a mãe regozijam-se com isso e pedem à pessoa que o acaricia que volte a vê-la.
As mulheres gozam de grande liberdade e é raríssimo que a esposa falte ao respeito que deve ao tálamo conjugal.
E, contudo, existe a escravidão, composta por prisioneiros de guerra, distribuídos pelo príncipe e seus súbditos indiferentemente. Já aqueles que, não podendo pagar as suas dívidas, pagam com a liberdade [a sua dívida], podem resgatar-se.
(...) Esses pais carinhosos, estes maridos ternos e dedicados, se se acham endividados ou não podem solver os seus compromissos, entregam um filho, uma filha, e até a mulher, se a comprarem, como é vulgar, em pagamento, e ainda quando a mulher não foi comprada e é livre e tem bens seus, também pode pagar com ela, se esta nisso consentir ! Mistérios do coração humano.”
In: Ocidente. – Lisboa. – Ano 6, n. 158 (11 de Maio 1883), p. 106-108
"No decorrer da minha vida errante, levou-me um dia o destino à capital do reino do Sião. Margens viçosas as do Menam; casas flutuantes; rostos cor de chocolate de grossos lábios inchados pelo betel. Já pouco me recordo de tudo aquilo. O seu leopardo e os seus abutres simbolizam hoje para mim, apagada a primeira impressão dos detalhes, a ideia que conservo de Bangkok.
Entramos, eu e alguns amigos, no vasto recinto onde se situa a habitação real. Sua Majestade Somdetch P'ra Paramindr Maha Chulalongkorn está ausente do seu reino, mas um amável príncipe, que nos serve de anfitrião,
mostra-nos as maiores curiosidades do local. Os jardins aqui são relvados, onde, em nossa honra são postos a passear os famosos elefantes brancos, dirigidos por hábeis cornacas. Seguem-se os pagodes, geralmente encimados por cúpulas piramidais, que terminam em altíssimas grimpas. Fixa-se a nossa atenção nas paredes revestidas de mosaicos, inscrustações de madrepérola das portas, nas figuras alegóricas do culto religioso, no grandioso Buda feito de uma só esmeralda de três palmos de altura, de valor inestimável.
Ergue-se mais além o palácio real, numa elegantíssima fachada cujo único defeito está no mau gosto da sua arquitectura europeia sob um telhado de pura feição siamesa. Lá dentro vemos a sala de recepções oficiais, os aposentos do menino herdeiro do trono, a piscina onde ele se exercita em natação, os seus gabinetes de estudo tendo nas paredes mapas sobre zoologia e sistema métrico decimal. Cá fora cruzam-se fidalgos, ministros, funcionários: há um vai-vem continuo de criados e soldados que se acocoram e põem as mãos no chão quando deles se aproxima o nobre príncipe que nos acompanha. Apontam-nos com respeito, deitados sobre um taboleiro de relva, uns garotinhos descalços, cor de âmbar: são os filhos de Sua Majestade. Vem descendo a noite, amena, transparente. Conversamos sobre vários assuntos passeando vagarosamente ao longo das trilhas cobertas de fina areia.
Informam-nos que sua majestade, partindo em excursão pela península malaia, levara consigo as suas muitas esposas. (...) A noite adiantava-se. Os abutres, em ramadas distantes, piavam lugubremente, chamavam-se, como convidando-se para uma farta refeição. Os abutres? Outra recordação, outra história a contar, se me permitem. Vira-os na véspera, não longe do palácio real, num vasto recinto chamado Wat-Saket. Imaginem um campo cercado de muros, cheio de vegetação selvagem. No solo, montículos de cinzas recentes, produto da queima de cadáveres, pois estamos no local das cremações. Chega-se a uma clareira. Uma coisa que foi um homem, que depois foi cadáver, que é agora unicamente uma informe massa negra e corroída, jaz por terra, conservando apenas quase intacta a cabeça. Isto foi pasto do banquete dos abutres. Resta pouco. Dois abutres, últimos do festim, poisando gravemente sobre as costelas, alongam os pescoços e debicam os restos de alimento. Aqui vai a explicação. No Sião, a cremação é usada por todos, com excepção dos condenados. Quando das prisões sai um cadáver, é enterrado nas imediações de Wat-Saket (...)".
Bangkok, Dezembro de 1890
MORAIS, Venceslau de. Traços do extremo oriente: Siam, China, Japão. Lisboa : Livr. de Antonio Maria Pereira, 1895.
(Recolha de textos por Miguel Castelo Branco)
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